Centauro segundo Borges
Posted on 29 julho 2009 por:
João Acuio
O centauro
O centauro é a criatura mais harmoniosa da zoologia fantástica. As Metamorfoses de Ovídio chamam-no “biforme”, mas não custa esquecer sua índole heterogênea e pensar que no mundo platônico das formas existe um arquétipo do centauro, assim como do cavalo e do homem. A descoberta desse arquétipo exigiu séculos; os monumentos primitivos e arcaicos exibem um homem nu que é incomodamente adaptado à garupa de um cavalo. No frontão ocidental do Templo de Zeus, em Olímpia, os centauros já têm patas eqüinas; do ponto do qual deveria sair o pescoço do animal sai o torso humano.
Ixíon, rei da Tessália, e uma nuvem a que Zeus deu a a forma de Hera engendraram os centauros; outra lenda dá conta de que são filhos de Apolo. (Já se disse que “centauro” é uma derivação de gandharva; na mitologia védica, os gandharvas são divindades menores que guiam os cavalos do Sol.) Como os gregos da época homérica desconheciam a equitação, conjectura-se que ao ver um nômade tenham pensado que ele formava uma unidade com seu cavalo; e alega-se que os soldados de Pizarro ou de Hernán Cortés também foram centauros para os índios.
“Um daqueles a cavalo veio abaixo; e como os índios viram aquele animal dividir-se em duas partes, dando por certo que tudo era uma coisa só, foi tamanho o medo que sentiram que deram as costas gritando para os seus, dizendo que havia virado dois e admirando-se daquilo; o que não foi desprovido de mistério; porque, se isso não sucedesse, presume-se que teriam matado todos os cristãos”, reza um dos texto citados por Prescott.
Mas os gregos, diferentemente dos índios, conheciam o cavalo; o verossímil é conjecturar que o centauro foi uma imagem deliberada, e não uma confusão ignorante.
A mais popular das fábulas em que os centauros aparecem é a de seu combate com os lápitas, que os haviam convidado para um casamento. Para os hóspedes, o vinho era novidade; na metade do festim, um centauro embriagado ultrajou a noiva e deu início, derrubando as mesas, à famosa centauromaquia que Fídias, ou um de seus discípulos, esculpiria no Partenon, que Ovídio cantaria no livro XII da Metamorfoses, e que inspiraria Rubens. Os centauros, vencidos pelos lápitas, tiveram que fugir da Tessália. Hércules, em outro combate, aniquilou a estirpe a flechadas.
A rústica barbárie e a ira estão simbolizadas no centauro, mas “o mais justo dos centauros, Quíron” (Ilíada, XI, 832), foi professor de Aquiles e de Esculápio, tendo instruído ambos nas artes da música, da cinegética, da guerra e até da medicina e da cirurgia. Quíron figura memoravelmente no canto XII do Inferno, que por consendo geral se chama “canto dos centauros”. Vejam-se a esse respeito as finas observações de Momigliano, em sua edição de 1945.
Plínio diz ter visto um hipocentauro, conservado em mel, que mandaram do Egito para o imperador.
Na Ceia dos sete sábios, Plutarco conta com humor que um dos pastores de Periandro, déspota de Corinto, levara para ele numa sacola de couro uma criatura recém-nascida que uma égua havia dado à luz e cujos rosto, pescoço e braços eram humanos e o resto eqüino. Chorava como uma criança, e todos acharam que se tratava de um presságio terrível. O sábio Tales olhou para ele, riu-se e disse a Periandro que realmente não poderia aprovar a conduta de seus pastores.
No livro V de seu poema De rerum natura, Lucrécio afirma a impossibilidade do centauro, porque a espécie eqüina chega à maturidade antes da humana, e com três anos o centauro seria um cavalo adulto e um menino balbuciante. Esse cavalo morreria cinqüenta anos antes do homem.
Jorge Luis Borges
O centauro
O livro dos seres imaginários
tradução: heloisa jahn
Companhia das Letras
