Ondas e Luas, mulheres (uma conversa sobre navegação)

Posted on | agosto 8, 2009 | 5 Comments

hokusai

O esforço é grande, o homem é pequeno,

Eu, Diogo Cão, navegador, deixei

Este padrão ao pé do areal Moreno

e para deante, naveguei

A alma é divina e a obra é imperfeita.

Este padrão signala ao vento e aos céus

Que na obra ousada, é a minha parte feita:

o por-fazer é só com Deus.

E ao imenso e possível oceano

Ensinam estas Quinas, que aqui vês.

Que o mar com fim será grego ou romano:

o mar sem fim é português.

Fernando Pessoa


Como este poema, o navegador Amyr Klink atravessou os perigos do Atlântico Sul à bordo de um barco à remo, coisa praticamente insana naquela época e com ajuda da alta tecnologia e várias inteligências de navegação, ele partiu do porto de Lüderitz, na costa da Namíbia, África, o navegador então com 29 anos de idade aportou solitariamente cem dias depois na Praia da Espera, no litoral baiano. Em 18 de setembro de 1984 aportou em Salvador, sendo por “navegador solitário”.

Em seu livro, que li como forma de superar meus medos diante de uma espera infinita que dura 4 anos, recebi uma força excomunal de fazer acreditar naquilo que a gente busca. Aja fôlego, obrigada pelas forças do mar e de meus amigos saturnálicos.  Fora isso, fora ler o livro na espera do meu tão sonhado VISA, com a minha luazinha de capri entrando em meu porto de aguadeiro, me chamou atenção a passagem onde ele, Amyr se orientando por barômetros e bússolas, por famílias de peixes dourados que o acompanharam demonstrando confiança no ritmo, ataques de tubarões gulosos por marcas no casco, por colônias de larvas, atormentando por baleias gigantes e as incíveis ondas regidas pela Lua, trancrevo aqui alguns detalhes que me chamaram atenção no livro, parafraseando um post do Acuio (que cito mais abaixo) sobre as viúvas, naturalmente falarei de mulheres e suas luas.

Acompanhem o que Amyr Klink descreve sobre a nomenclatura divertida das ondas, que de acordo com as Luas, se comportam como mulheres em períodos de nascentes ou crescentes humores, enigmáticas formas de acordar e supreendentes formas de dormir, mulheres ondas que de ciclo em ciclo assustavam o navegador, ora como viúvas, ora como amantes, ora como madrastas impiedosas e más…

“E, assim, entre discussões e mal-entendidos com as ondas, passei a coviver suportavelmente com seus humores. Senti que não deveriam ser xingadas quando me enfureciam, pois sempre respondem à altura.

Desse forçado relacionamento, surgiu, no meu diário, uma classificação não muito ortodoxa para as ondas…

As Madames

Ondas imensas, com cristas e colares formando muito espuma branca, mas que, com toda pompa, não me faziam mal algum.

As Fresquinhas

Não eram grandes, mas sempre se sobressaíam.

As Cuspideiras

Pequenas e mal-intencionadas e nunca deixavam a roupa secar direito, pregam peças e são de lua.

As Comadres

Parecem amigas, mas não são de confiança. De vez em quando acertam o barco por trás.

As Perdidas

Chegam com a lua nova e o mar agitado, atacando por todos os lados, tontas, cansadas, chegam a 9 metros de altura e me deixam desprotegido e vulnerável.

As Viúvas

Nunca avisam a hora de chegar e são impetuosas, silenciosas, insistentes e caem repentinamente conforme a Lua muda. Desaparecem por tempos e voltam quando algo está normal.

As Madrastas

Com elas é capotagem certa.

E você, mulher? Que tipo de onda você está?


Pra relembrar mais um pouquinho da Rua Augusta, uma parada nossa, pra ouvir Adriana Calcanhoto, que é Lua em Capri como eu:

Marítimo de Adriana Calcanhoto

Beijos da aguadeira sonhadora Karen “alga marinha” Tortato

legenda da foto: A Onda de Hokusai: que será tatuado nas minhas “costas marítimas” hora dessas.

Mais sobre Hokusai? quem é esse tal de Hokusai?
http://culturanalise.blogspot.com/2005/05/onda-de-hokusai.html

Comments

5 Responses to “Ondas e Luas, mulheres (uma conversa sobre navegação)”

  1. 1
    DJ Karen Tortato Says:

    meu outro site, caso queiram saber mais da minha mente doentia: http://morracarninha.blogspot.com/

  2. 2
    Daniela Says:

    hahahaha muito bom!

    Eu estou esta:

    Onda Capitu

    Aparece na Lua Cheia. Vem com calma, mas é imensa e, invariavelmente, aumenta o nível do mar e alça e arrasta o barco a grandes alturas para depois descer onda a baixo, sem freio e sem medo. Em alguns momentos sacode as águas todas. Ora com algum dano, mas sempre com vontade de brincar.

  3. 3
    Acuio Says:

    O Amyr Klink também tem a Lua em Caprica. É genial esta classificação porque certamente não há gente melhor que entenda a Senhora Lua do que os navegadores, os marinheiros, os que remam e pescam. Lua Madrasta chamávamos aqui a própria Lua em Capricórnio. Podemos começar a chamá-la de a ‘navegadora solitária’, pois. A Adriana, com a sua noite veloz e cinzas das horas, é a nossa Maysa pós-pós. Maysa também tinha (tem) a Lua em Capricórnio assim como o Doutor House.

  4. 4
    Acuio Says:

    Certa vez levei um pé-na-bunda de uma guria. O único jeito de sobreviver ao golpe foi ouvir Maritmo sem parar, até virar a onda.

  5. 5
    Acuio Says:

    Karen, que bom que vc está aqui.

    Muito bom também este link sobre o desenhista da onda. O Mishima veio arrastado junto.

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