Como se pronuncia Io Saturnália?
Posted on 13 outubro 2009 por:
Daniela Scheifler
Se me fosse dada a oportunidade de voltar no tempo e eu tivesse que escolher um só lugar para ir, escolheria viajar até século III a.C. e conheceria a biblioteca de Alexandria, no Egito. Por quê? Ah porque ela foi a maior biblioteca do mundo antigo construída em época Ptlomaica, depois de Alexandre Magno. Imaginem todos os textos antigos ali enrolados em papiros, organizados conforme a ciência e a importância. Seria uma festa para os históricos da língua, para os literatos, para os homens de ciência e para uma curiosa como eu.
Infelizmente, essa biblioteca foi destruída, não se sabe bem como, provavelmente em um incêndio entre os séculos II e IV depois de Cristo. Mas imaginem só que, antes mesmo de construí-la, os intelectuais da época, selecionavam as obras mais importantes do mundo helenístico e descartavam aquelas que eles julgavam de menos monta. Certamente, muita coisa se perdeu em tal seleção. Uma coisa é certa: as raízes da nossa civilização estão ali, nos gregos. Depois os latinos beberam naquela fonte e se apropriaram de quase tudo, comeram, deglutiram, mastigaram não o Caetano, mas os gregos.
Agora, se me fosse dada uma segunda chance de viajar no tempo eu iria com a minha pequena, mas sempre fiel câmera fotográfica, gravar a fala e a vida dos romanos do I século a.C, em época Augustea. Já imaginaram? Teríamos registros orais e visivos de Horácio, Virgílio, Ovídio e Cicerone, todos eles antropófagos do mundo grego. Poderíamos gravar os grafites dos muros da coloridíssima Roma. Sabiam que os romanos amavam o grafite e a cor vermelha?
Conheceríamos, ainda, as mulheres romanas, seus costumes, o modo como influenciavam a conturbada política do final da idade republicana. Conheceríamos o Senado! Seria uma festa para os históricos e curiosos de todas as áreas. Outra coisa que possivelmente recuperaríamos é a fala do latim clássico que floresceu justamente à época de Augusto. Hoje, se têm poucos documentos que podem colocar um pouco de luz na fala do latim vulgar. Recuperar a fala do latim clássico, então, é ainda mais difícil. Ahá, chegamos finalmente no cerne da questão. Como é que se pronuncia afinal de contas o Io Saturnalia? Pergunta difícil essa. Mas, vamos por partes.
Em primeiro lugar devemos ter claro que a fala do latim clássico se perdeu com o passar dos dias e das noites dos tempos. Para se ter uma idéia, no latim clássico existiam 10 vogais tônicas e 10 átonas, ou seja, 10 vogais que poderiam ocupar sílabas acentuadas ou não. A diferença na duração dos sons vocálicos podia ocorrer tanto em sílaba tônica, quanto em átona. Esse timbre do latim é desconhecido pra nós.
Vogais latinas: Ĭ Ī Ē Ĕ Ă Ā Ō Ŏ Ū Ŭ
As longas vêm acompanhas de um tracinho e as breves de um semi-círculo. Vejam este exemplo do latim clássico: LĬBER ‘livro’ e LĪBER ‘livre’. Alguém arrisca a pronúncia desses “is” do latim? Os latinos sabiam!
Dependendo da duração desse ‘i’ se dizia uma coisa ou outra. Imaginem a confusão que uma duração mal feita poderia provocar. Mas voltemos então ao nosso problema. O Io, num dicionário latino, vem definido assim:
ĭō:interjeição exclamativa, parte indeclinável do discurso.
Io: Viva!
1-(expressão de alegria) viva!
2-(expressão de dor) ah! oh! ai de mim!
3-(como apelativo) olá!
E como se pronuncia?
Em latim clássico não temos como saber. Mas podemos analisar a transformação que se deu até as línguas vulgares e escolher uma das pronúncias. Por exemplo: em italiano, o i breve do latim, ou seja o Ĭ se transforma em ‘e’ fechado, como o ‘e’ de cabelo, diferente do ‘e’ de belo. E a vogal ‘o’ longa do latim, ou seja, Ō se transforma em um ‘o’ fechado, como o ‘o’ de ouro. Então, o som de ĭō no italiano seria EO. Já no português o Ĭ do latim se transforma em ‘i’, enquanto que Ō se transforma em um ‘o’ aberto, como em olhos. Então, este mesmo ĭō, em português vira Ió! Vale lembrar que essas transformações, em linguística histórica, obedecem a uma série de contextos e por isso mesmo existem exceções à regra, sempre. Por exemplo:o PĬLUM latino em italiano é pélo e em português pêlo. Essa palavra se pronuncia da mesma forma nas duas línguas, com o ‘e’ fechado. Então o Ĭ nesse caso produziu um ‘e’ fechado seja no italiano como no português, contradizendo a regra. Já a palavra latina SŌLEM produz em italiano sóle (o fechado) e em português sol (o aberto) e nesse caso confirma a transformação.
Qual das pronúncias vocês preferem? Eu fico com o português!
Ió Saturnalia!
