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Ser simples é tão bom

Rip van Winkle era o cara mais legal da vila. O certo é que ele era o favorito de todas as boas esposas da localidade (…). Também as crianças da aldeia gostavam dele e gritavam de alegria ao vê-lo aproximar-se. Assistia-lhes aos jogos, fabricava-lhes brinquedos, ensinava-lhes a soltar papagaios e jogar bolas de gude, contava-lhes compridas histórias de fantasmas, feiticeiras e índios. Quando atravessava a aldeia, roçando as paredes, estava sempre rodeado de um grupo de garotos que se penduravam às suas vestes, lhe trepavam às costas e lhe pregavam impunemente uma infinidade de peças. Não havia cachorro da região que não o acolhesse sem latir.

O grave defeito do temperamento de Rip era uma aversão insuperável a toda espécie de trabalho útil. Ele até que era bastante gentil e se dispunha a ajudar sempre que alguém precisava martelar uma cerca ou debulhar milho. Mas da sua própria casa… De nada servia – costumava dizer – trabalhar a sua roça, que era o pedaço de terra mais desgraçado de toda a região. E, se de nada adiantava trabalhar, era muito melhor passar os dias cantando e conversando.

Quem não gostava nada dessa história era a Sra. Van Winkle. E talvez Rip fosse assim tão dócil pois são justamente os homens submetidos em casa à disciplina de uma megera que fora de casa sabem ser obsequiosos e conciliadores. Mal ele entrava na sua casa e recebia vassouradas na cabeça, era acusado de preguiçoso vagabundo cachorro sem-vergonha – e, quando isso acontecia, dava-se por satisfeito de ter sido dentro de casa, e não com escândalos na rua, como a esposa costumava fazer – o que deixava Rip bastante triste e constrangido, ele que morria de medo da mulher.

Até que um dia…

Até que um dia Rip subiu as montanhas para caçar esquilos, como gostava de fazer, e acabou caindo na bebedeira com uns gnominhos esquisitos que apareceram por lá. Acordou no dia seguinte com uma ressaca braba, dessas em que a gente não sabe nem quem a gente é, e resolveu descer a montanha para voltar pra casa, já imaginando a surra que ia receber da esposa por ter passado a noite fora.

A ressaca de Rip, no entanto, foi se mostrando mais grave do que ele havia imaginado. Não só ele próprio se sentia esquisito, como tudo ao seu redor parecia com-ple-ta-mente diferente. As pessoas estavam trajando umas roupas esquisitas e ele não reconhecia nenhuma delas, ele que jurava conhecer muito bem cada um da sua cidade. As casas também pareciam fora de lugar e, quando ele chegou à sua, não encontrou a esposa, nem os filhos, mas apenas ruínas abandonadas.

Logo um burburinho começou a se formar em torno daquele velho estranho, levando uma espingarda enferrujada e sem saber direito responder as perguntas que lhe eram feitas. E, no meio da multidão que o cercava, Rip pareceu reconhecer alguém.

“Qual é o vosso nome, minha gentil senhora?”, perguntou

“Judite Gardenier”

“E o nome de vosso pai?”

“Coitado! chamava-se Rip van Winkle; mas saiu de casa há vinte anos com a espingarda ao ombro e nunca mais ouvimos falar nele. O seu cachorro voltou sozinho; ninguém sabe, porém, se ele se matou ou se os índios o carregaram. Naquele tempo eu era uma criancinha.”

Rip só tinha agora uma pergunta para lhe fazer, e fê-la num tom de hesitação:

“Onde está a vossa mãe?”

“Oh, ela também morreu pouco tempo depois; rebentou um vaso sanguíneo num ataque de cólera provocado por um vendedor ambulante de Nova Inglaterra.”

Esta informação, pelo menos, encerrava uma gotinha de consolo. O bom homem não pôde conter-se mais tempo, abraçou a filha e o neto e exclamou:

“Eu sou vosso pai! Outrora o jovem Rip van Winkle… agora Rip van Winkle o velho! Ninguém reconhece o pobre Rip van Winkle?”

Todos ficaram assombrados. Uma velha, depois de atravessar, cambaleando, a multidão, levou uma das mãos às sobrancelhas e, fitando-o um momento, gritou:

“Não há dúvida, é Rip van Winkle! É ele mesmo! Bons olhos o vejam, vizinho! Por onde andou estes vinte longos anos?”

A história de Rip foi contada depressa, porque para ele os vinte anos não eram mais que uma única noite. Os vizinhos ouviam-no pasmados; alguns faziam sinais entre si com a cabeça e olhavam para ele com desconfiança irônica (…).

Para abreviar a história, o grupo dispersou-se e voltou a um assunto bem mais importante, a eleição. A filha de Rip levou-o consigo e manteve-o a seu lado, numa casa confortável e mobiliada. Seu marido era um fazendeiro robusto e alegre, de quem Rip se lembrava como de um dos garotos que costumavam trepar-lhe às costas. (…)

Agora Rip retomava os antigos hábitos e recomeçava os seus passeios; não tardou a encontrar alguns velhos companheiros, mas todos bastante mudados pelos estragos do tempo; por isso, preferia contrair amizades entre geração nova, na qual dentro em breve conquistou grande popularidade.

Como nada tivesse que fazer em casa e tendo chegado à idade feliz em que um homem pode ser preguiçoso impunemente, retomou o seu lugar no banco à porta da estalagem e passou a ser reverenciado como um dos patriarcas do lugar e uma crônica do velho tempo “antes da guerra”.

FIM

Para ler a história inteira (inclusive com o final de verdade), ver “Rip van Winkle”, de Washington Irving, em Contos norte-americanos (seleção e tradução de Aurélio Buarque de Hollanda e Paulo Rónai). Aí embaixo tem uma animação do conto, dividida em quatro partes no Youtube. Bom dia : )

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One Response to “Ser simples é tão bom”

  1. 1
    João Says:

    História linda, simples e o velho tempo, tempo, tempo.

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