Autoridade dourada e fascista
Posted on 12 março 2010 por:
João Acuio
por Jean Wyllys
SALVADOR, BA, 10.03.2010
O sucesso do gaúcho Marcelo Dourado junto às audiências do BBB10 levanta um problema fundamental da vida humana: o desejo – às vezes inconsciente – da maioria por autoridades perversas. A autoridade perversa é, segundo a psicanálise, aquela inevitavelmente masculina, narcisista, pesada, auto-interessada, arbitrária e, quase sempre, tirânica. E esse tipo de autoridade tem um apelo misterioso junto às massas.
Freud já tinha dito que nós, seres humanos, temos uma espécie de fome de dominação e de ordem que se acentua nos momentos em que a vida nos parece desordenada e confusa. Partindo dessa proposição freudiana, é possível dizer que a presença dos “coloridos” e de seus simpatizantes no BBB10 e suas “licenciosidades” ou “libertinagens” perturbaram as audiências heterossexuais e tradicionais.
É como se o fato de o programa abrigar um “sapatão”, uma drag queen e uma “bicha” andrógina pós-adolescente, bem como uma desinibida dançarina de boate, uma policial militar boquirrota e que se diz sexualmente desenfreada e um judeu editor de pornografia; é como se o fato de o programa abrigar essa fauna diversa ameaçasse os valores morais das audiências heterossexuais e zelosas da família tradicional; como se derrubasse suas certezas e mergulhasse suas vidas interiores num caos.
Por isso, Marcelo Dourado, ao se opor explicitamente à “licenciosidade” dos coloridos, emergiu como o líder de caráter fascista, que satisfaz a vontade geral de ordem e segurança. Quando as pessoas são assoladas por dúvidas, esse tipo de líder traz a segurança da “verdade”; do que é “verdadeiro” e “certo”, logo, confortável. Não por acaso Dourado cresceu na preferência dessas audiências depois da afirmação de que homens que transam apenas com mulheres não se infectam por HIV, o vírus da AIDS.
Nada mais confortável para uma maioria ameaçada por uma doença ainda incurável que saber que a mesma não lhe pode atingir, mas, apenas aqueles cujos modos de vida ela reprova, ou seja, os homossexuais. Essa afirmação de Dourado é equivocada e preconceituosa, é claro, mas, o líder fascista também se caracteriza por carisma capaz de levar as massas a engolir mentiras como se fossem verdades. Líderes assim são especialmente atraentes para jovens e mulheres, que são a maioria entre as audiências do BBB.
Dourado encarna a totalidade das aspirações da maioria heterossexual, mesmo que as audiências que lhe apóiam não estejam conscientes dessas aspirações (com certeza não estão, por isso, é que procuram justificar seu apoio ao gaúcho e sua identificação com a homofobia do mesmo no fato de ele “dizer as coisas na cara, mesmo as mais desagradáveis”).
Dourado tem as características daquele “ridículo tirano” a que Caetano Veloso se refere na letra de Podres poderes, ou seja, é tirano, mas, é passível de provocar riso. Há, por exemplo, quem ache muita graça em vê-lo arrotar à mesa. Aliás, não foi sobre Caetano Veloso que Marcelo Dourado disse que gostaria de vomitar? Sintomático.. .
Esse tipo de líder permite alguns excessos, mas, sob certas condições prescritas. Por exemplo, Dourado tolera as excentricidades de Serginho desde que ele não fale de suas relações sexuais nem se oponha deliberadamente à ordem heterossexual que ele defende. Ora, é fácil tolerar um gay quando ele tem homofobia internalizada, é despolitizado, está reduzido ao estereótipo da “bicha louca” e, por isso mesmo, justifica a opressão que a maioria heterossexual exerce contra os homossexuais. Logo – e entendam isso de uma vez por todas – o gaúcho não deixa de ser homofóbico por causa dessa aproximação com Sérgio, muito pelo contrário.
Como eu sei que todo líder fascista é auto-interessado, eu não me deixei seduzir pelos elogios de Dourado à minha pessoa, afinal, ele sabe que eu gozo de alguma popularidade e prestígio, logo, não me criticaria abertamente; ao contrário, principalmente quando há um milhão e meio de reais em jogo. Por essa grana, ele sempre faz o jogo de “assoprar depois de morder”, ou seja, de posar de bacana depois de uma cena de fúria homofóbica, como naquela em que xingou Dicésar de “viado”, ressaltando, nesta palavra, toda sua carga negativa (sem contar que oposição “viado” versus “homem”, presente em sua frase para Dicésar, é típica da estupidez homofóbica e machista de quem não quer ver ou finge não saber que todo “viado” também é homem; alguns são até mais homens que o próprio Dourado, no sentido de que sabem conviver com os diferentes e respeitá-los verdadeiramente, sem interesses).
Sua ascensão é parte da histórica necessidade que a maioria tem de verdade, de ordem, de lei e de rei. Mas, ao mesmo tempo, essa necessidade pode resultar na destruição de méritos importantes dos seres humanos, como a democracia, as liberdades civis e o direito de livre expressão das sexualidades e de outros modos de vida que não aqueles celebrados em comerciais de margarina.
E por que venci a quinta edição mesmo sendo gay assumido? Ora, porque todas as minhas outras qualidades ficaram maiores que a minha orientação (era como se as pessoas desculpassem o fato de eu ser gay por ser, ao mesmo tempo, honesto, íntegro, bom e inteligente); porque eu era o único em um grupo majoritariamente heterossexual, logo, não representava uma ameaçava às audiências; e porque minha história de vida se parece com a de todo brasileiro que vence a pobreza através da educação; e porque eu apenas disse que era gay, não vivi minha sexualidade (e foi me comportando assim que consegui negociar minha permanência). Ficou difícil torcer contra mim. No BBB10, a maioria das audiências encontrou as condições ideais para voltar à velha homofobia.
Jean Wyllys é escritor e jornalista

março 12th, 2010 at 19:11
Nunca assisti BBB, mas gostei do texto, não sei o q se passa lá, mas é bem plausível a imagem de um lider como este exposto, em uma sociedade tão cristã que teme assim o que lhe faz ver o seu proprio preconceito.
Mas de qq forma, é mesmo assim tão estereotipado tudo isso no BBB? nem parece real…
março 12th, 2010 at 20:15
Lendo o texto dá pra lembrar de Adolf Hitler, Benito Mussolini, Hugo Chávez, Irmãos Castro(Cuba), Juan Péron, Augusto Pinochet, Anastasio Somosa, Solano López, Idi Amin Dada, Mulah Omar, Sadan Hussein, Leonid Brejnev, Castelo Branco, Ernesto Geisel, Luiz Inácio, Roberto Requião entre tantos outros, e entender que tipo de gatilho inconsciente conseguiram fazer disparar na massa de incautos que a eles delegaram poder e fama.
Lamentável e sim, também real.
março 12th, 2010 at 22:27
Ehheheh
Jean arrasou!!!
Esse Dourado merece apodrecer junto aos preconceituosos de plantão..
março 13th, 2010 at 10:02
Muito barulho por nada. No Big Brother, o ganhador é quem se faz de vítima melhor que os outros (inclusive o professor Wyllys).
Entre “um “sapatão”, uma drag queen e uma “bicha” andrógina pós-adolescente, bem como uma desinibida dançarina de boate, uma policial militar boquirrota e que se diz sexualmente desenfreada e um judeu editor de pornografia”, Dourado é minoria. Logo, o pobrezinho que o público quer salvar.
Não há lição de moral aqui.
março 13th, 2010 at 10:26
Jean levanta uma percepção que é simples: diante de personalidades difusas, a personalidade mais coesa ganha a aprovação do público. Acho que é simples assim. O BBB 10 é Dourado Marte em LEÃO (MARTE EM LEÃO do mapa do programa) X os outros mais ou menos em cima do muro. O público tem mais facilidade de se identificar com a personalidade coesa. As repercussões sociológicas que Jean tece são outros quinhentos.
março 14th, 2010 at 19:42
Ao mencionar grandes ditadores não me referia ao tal Dourado que nem sei direito quem é mas estou certa de que não chega ao chulé dos mencionados. Pelo pouco que acompanho o cara é pouquinho …
Falava sim, das repercussões sociológicas embutidas no texto do tal Jean. E psicológicas também.
março 14th, 2010 at 19:54
Ah sim, Valéria, foi o que eu entendi. É tão interessante o modo como o BBB mexe com as pessoas. No twitter há, por exemplo, respostas de repúdio ao Jean, por conta deste texto, e a mim. A mim porque coloquei o texto dele aqui e isso denotaria que eu concordo com tudo que Jean disse. E o Saturnália só quer debater criticamente, “ouvir todos os lados”, de modo a embaralhar os dados. Acho que a brincadeira é essa. Afinal, aqui por baixo, do céu pra baixo, todo mundo é gente, não é mesmo? Valeu por sua participação, contribuição.
março 14th, 2010 at 21:24
Isso aí, Acuio.
Adoro Saturnália pela possibilidade de “discutir” o que realmente importa sem o determinismo das paixões, humanidades enfim.
Em frente e parabéns pela ideia e disposição! Estou sempre atenta (rs). Adoro!
março 17th, 2010 at 13:46
vai te catar seu atoa… deixa o cara fazer a participação dele. vc teve a sua se deu bem agora para de azar o cara…
março 17th, 2010 at 14:21
Nossa, carlos!!
Como vc é gentil e educado, né??