Por que o Saturnália não promove horóscopo de 12 signos?

 

 

Algum gênio da raça teve a brilhante idéia de dividir a diversidade humana em doze tipos e, desde então, dia após dia, oferece aos desavisados quatro linhas sobre o futuro quase sempre medíocre do seu signo solar: um amorzinho nas quintas, uma visita amiga na sexta, trabalho duro na segunda, sossego e cerveja no fim de semana: o horóscopo de jornal acabara de ser inventado. A receita: texto difuso e previsível (para que todos entendam e imprimam algum sentido nas entrelinhas). Em suma: chuva de chavões, pingos de autoajuda, bananas de banalidades. André Bretón ficou puto e declarou, nos anos 50:

“Vejo a astrologia como uma senhora, escultural, absolutamente linda e de um reino tão distante que não consigo evitar que me cative. Em termos puramente físicos, sua vestimenta é incomparável. Porém além do reino do visível, a astrologia para mim encerra um dos mais altos segredos no mundo. É uma pena que hoje – pelo menos na compreensão popular – esteja uma prostituta sentada em seu trono”. (p. 152, Em que acreditam os astrólogos, ed. Civilização Brasileira, 2010, Nicholas Campion).

O horóscopo de jornal já foi desmascarado por Theodor Adorno (As Estrelas descem à terra – a coluna de astrologia do los angeles times, um estudo sobre superstição secundária) e também por Roland Barthes (Mitologias) como discurso à serviço da angústia (promete-se o mundo), do fomento ao consumo (vende esmalte, lingeries, celebridades, moda, revistas) e da indústria de apaziguamento das tensões sociais, a do entretenimento. Você lembra o que o seu horóscopo disse ontem? E anteontem? Provavelmente lhe fez alguma promessa, tentou acalmá-lo. Do ponto de vista da astrologia, nada mais impotente, fake, terrível, infantil e sem erotismo – a astrologia maravilhosa não é representada pelo o horóscopo de jornal. No entanto, sua imagem junto ao grande público é feita de doze dicas, uma para cada signo solar e, desde então, não há astrólogo que não tenha que responder todo mês a graciosa pergunta de simpáticos transeuntes: “Hoje é um bom dia para Escorpião?”, “Peixes combina com Leão?”, “Você acredita mesmo em astrologia? Isso é sério?” (pergunta infame que me faz concluir que o astrólogo é um charlatão a priori). Sem falar que o horóscopo emite a falsa mensagem que a astrologia é um culto monoteísta ao deus Sol, reduzindo a complexa estrutura de texto que é o mapa astral a um dos seus elementos, ao signo solar que, isolado, diz pouco, muito pouco, quase nada.

Para piorar, a grande (sic) mídia insiste na falsa polêmica astronomia X astrologia, como se uma respondesse pela outra. Até o Incrível Hulk sabe que astrologia e astronomia, hoje, são áreas de conhecimento distintos. Quem liga para um astrônomo para consultar o destino de sua vida profissional? Sim, astrologia lida com a ideia de destino. Quem procura um astrólogo para saber sobre a química da atmosfera de Marte? Mas, se até o Hulk sabe, por que a mídia insiste nessa mentira? Resposta: para vender revista. Astrologia é popular, apesar dos seus praticantes mais herméticos e amargos dizerem que não. Aliás, também tenho lá as minhas dúvidas se realmente é possível popularizar a astrologia sem envergonhá-la.

O horóscopo de jornal é um produto da indústria cultural, assim como as palavras cruzadas e as tiras de quadrinhos. Fico com os quadrinhos. Tire um destes três dos cadernos de cultura para ver o que acontece com a caixa de email do coitado do editor-chefe. Apesar do horóscopo de jornal não representar a força e os mistérios mais profundos e úteis da astrologia, o fato é que as colunas de horóscopo continuam firmes e fortes, sem mudança alguma no seu modelo já secular, mesmo com a liberdade de meios oferecidos pela Internet (por outro lado, é na web que surgem novos modos de trabalhar com o assunto). A pergunta fundamental é: por que a persona da astrologia não muda na grande mídia (revistas, impressos, portais na internet, telefonia)? Creio que os algozes são três, nesta ordem:

1) o próprio astrólogo que, sem criatividade, muito menos imaginação, insiste no modelo difuso das dicas aos doze signos astrológicos;

2) a própria mídia (salvo exceções) que não tem a mínima ousadia para abrigar outras propostas astrológicas, a não ser as falsas polêmicas, quem combina com quem, as previsões para o seu signo, o sexo dos signos (estas últimas as revistas ditas femininas amam e publicam à exaustão); e, por fim,

3) o próprio público, que quer uma astrologia não-reflexiva, sem raízes e, pior, muito pior, alienada dos fenômenos culturais e políticos que a contextualiza (astrologia e cidade são unha e carne). Ok, tudo bem, de repente só se quer apenas algumas palavras para levar o dia com mais coragem e alegria, não vejo mal nisso. Mas para isso a inteligência astrológica não é precisa, discursos messiânicos e/ou motivadores são suficientes.

Os algozes são três e a vítima?

As vítimas são muitas, mas seguramente não é a Senhora Astrologia, vadia e escultural, generosa e terrível, poderosa e encantadora, que um dia André Bretón tanto amou.

5 comments

  1. Patricia

    Eu sempre gostei de horóscopo. Entender disso? Nada, nada. Lia o horóscopo dos 12 signos no jornal diário, na revista semanal, na revista mensal. Apesar disso, nunca me envolvi, não rolava paixão. Lia por ler. Até que encontrei seu perfil no Twitter e passei a ‘entender’ a beleza verdadeira da astrologia. Confesso que o que me segurou foi a poesia com que esse universo é tratado aqui no Saturnália. Poesia é o que me move, a cafeína da minha alma.

    Hoje? Posso dizer que, dia desses, observando uma pessoa do meu convívio pelas tuas aulas aqui, pensei: deve ter lua em tal signo. Fiz o mapa online e… acertei! :)

    Coincidência?? Quem pode dizer….

    Parabéns pelo trabalho lindo.

  2. Matolla

    O texto conseguiu materializar tudo aquilo que penso sobre a vulgarização astral.

    Como publicitário e amante do esoterismo, tento mostrar aos usuários do twitter como toda essa massa de frases feitas podem se tornar muito mais criativas, dinâmicas e atuais.

    Mesmo sendo um Walter Mercado de quinta categoria, creio agradar os meus não muito seguidores com toda sorte de bobajadas astrais tuítadas diariamente.
    Mais uma vez, parabéns pelo texto!

    Stephano Matolla.
    http://twitter.com/#!/matolla

  3. Acuio

    Ah sim. Mas continuo afirmando que a beleza e potência da Astrologia não está neste tipo de discurso, seja o texto bem ou mal elaborado. Astrologia só se revela a quem a pratica por anos a fio. E o horóscopo é sempre particular, isto é, somente através do seu mapa astral é possível adentrar este reino intrigante.

    Você estuda Astrologia?

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