Coringa Friederich Nieztsche

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No início do filme The Dark Knight, o Coringa vaticina:

─ O que não nos mata, nos torna mais estranhos.

Com essas palavras, o joker de Heath Ledger nos dá a chave do que virá a seguir: o primeiro Coringa da história do cinema inspirado em Nieztsche. Ou será que foi Nieztsche que consolidou a sua persona pública inspirado nos bufos e clowns, no homem que ri, assim como Bob Kane, Jerry Robinson e Bill Finger um dia pensaram o arquiinimigo do Batman?

Não ouvi o plutoniano Heath Ledger dizer que tenha lido ‘Assim falou Zaratustra’ de cabo a rabo, ou devorado ‘O anticristo’ do começo ao fim ou, ainda, aprendido a dançar com o único deus a qual Nieztsche poderia a se render – num deus que soubesse dançar – ou, ainda, num tapa, lido o ensaio sobre a genealogia do mal para poder compor um personagem tão perversamente verdadeiro – o fato é que Friederich Nieztsche ali está e encarnou as cicatrizes do Palhaço junto com Heath Ledger. Aliás, você sabia que o bigode de Nieztsche o fez esconder uma cicatriz que ali adquiriu?

O Coringa, com o seu jeito bufo de ser, anarquista, sacipinheiro, se apropria, e recria, a frase célebre do primeiro psicólogo do mundo – a frase que foi parar em pára-choque de caminhão: ─ O que não me mata me fortalece.

Nieztsche, no fio do bigode, passou a tradição do pensamento humano a limpo. E, assim, varreu para cima do mundo todo e qualquer poeira de pensamento civilizatório, decadente e sem potência. Nieztsche era tarado por potência! E transformou o pensar filosófico novamente em algo realmente perigoso.

Diz a lenda que Freud, ao ser perguntado se tinha lido Nieztsche, o pai da psicanálise respondeu:

─ De jeito algum, se assim tivesse feito, a psicanálise não teria nascido.

Ambos, Freud e Nieztsche tem o mesmo Ascendente: Escorpião. Paranóico que só vendo, Nieztsche encarou o ego o das idéias que o fitou, escancarando o id de toda e qualquer filosofia, religião, projeto cultural e político que o homem com seus valores morais, o bem e o mal, essas coisas, um dia ergueu sobre a terra. “O que não me mata me fortalece!”

“De fato, já quando rapaz de treze anos, o problema da origem do mal me perseguia: foi a ele que, em uma idade em que se tem ‘metade brinquedos de criança, metade Deus no coração’, dediquei meu primeiro brinquedo literário, meu primeiro exercício filosófico de escrita – e, no tocante à minha ‘solução’ do problema daquela vez, dei a Deus, como é justo, a honra, e fiz dele o pai do mal. (…) Felizmente aprendi a tempo a separar o preconceito teológico do moral, e não procurei mais a origem do mal atrás do mundo. Algo da escolaridade histórica e filológica, inclusive um inato sentido seletivo em vista das questões psicológicas em geral, transmudou em breve meu problema neste outro: sob que condições inventou-se o homem aqueles juízos de valor, bom e mau? e que valor têm eles mesmos?” – diz Nieztsche no prefácio de ‘Para a genealogia da moral’, mas bem que poderia ter saído, com alguma pimenta malagueta a mais, da boca do Coringa de Heath Ledger. Ou não?

Será que o Coringa, em sua infância, divertiu-se com histórias em quadrinhos, baralhos, playmobil e deuses no coração?

Nieztsche (15/10/1844, às 10:00 AM em Röcken, Alemanha) era um cirurgião: Marte em Virgem. O dono da faca, Marte, no signo da precisão, Virgem. O violento Marte conjunto ao eloqüente Mercúrio, o dono da palavra e do pensamento: um cirurgião do pensamento, portanto. Há quem diga que é uma conjunção não-exata, por conta da dupla não estar no mesmo elemento. De qualquer modo, ambos, Marte-Mercúrio, estão opostos aos poderosos Júpiter e Urano – que mantiveram a sua inteligência acesa diante dos temas morais, Júpiter e, os da criação, Urano. Criar, na esfera de Grande Louco Urano, subtende-se ruptura, niilismo, reinvenção: Shiva!

O filósofo alemão também tem a arguta Lua em Sagitário – a mesma do personagem Dr. Marcelo, do BBB8, que ia sempre com seu dedo jupiteriano em riste à busca de fragilidades alheias.

A mesma Lua em Sagitário – a da visão de águia – fez o bigodudo filólogo dizer que nascera póstumo – realmente nascera. E escrever capítulos intitulados ‘Por que sou tão sábio’, ‘Por que sou um Destino’, ‘Por que escrevo tão bons livros’’… Definitivamente, a Lua em Sagitário pode provocar prepotência megalômana.

À respeito da visão de águia e do caráter visionário, perdoe a citação longa mas necessária, do prefácio do livro ‘O anticristo’:

“Este livro pertence aos homens mais raros. Talvez nenhum deles sequer esteja vivo. É possível que se encontrem entre aqueles que compreendem o meu “Zaratustra”: como eu poderia misturar−me àqueles aos quais se prestam ouvidos atualmente? – Somente os dias vindouros me pertencem. Alguns homens nascem póstumos. As condições sob as quais sou compreendido, sob as quais sou necessariamente compreendido – conheço−as muito bem. Para suportar minha seriedade, minha paixão, é necessário possuir uma integridade intelectual levada aos limites extremos (Saturno em Aquário). Estar acostumado a viver no cimo das montanhas – e ver a imundície política e o nacionalismo abaixo de si. Ter se tornado indiferente; nunca perguntar se a verdade será útil ou prejudicial… Possuir uma inclinação – nascida da força – para questões que ninguém possui coragem de enfrentar; ousadia para o proibido; predestinação para o labirinto. Uma experiência de sete solidões. Ouvidos novos para música nova. Olhos novos para o mais distante. Uma consciência nova para verdades que até agora permaneceram mudas. E um desejo de economia em grande estilo – acumular sua força, seu entusiasmo… Auto−reverência, amor−próprio, absoluta liberdade para consigo… Muito bem! Apenas esses são meus leitores, meus verdadeiros leitores, meus leitores predestinados: que importância tem o resto? – O resto é somente a humanidade. – É preciso tornar-se superior à humanidade em poder, em grandeza de alma – em desprezo…”

E o Coringa, quando interrogado pelo Cavaleiro das Trevas ao modo do Capitão Nascimento de Tropa de Elite, defende a tese que é de vanguarda. Batman se chateou. (E é claro que o parantêsis acima, Saturno em Aquário, é meu.)

Ah, falando em Saturno, Coringa é o Saturno em Áries, em queda, Saturno satírico do mapa de lançamento da primeira história. No mapa fictício de Bruce/Batman, Saturno cai na 9 – testando os valores filosóficos do Cavaleiro, regendo a casa 7 – a dos inimigos declarados.


 

 

 

 

Outro aspecto, aliás o primeiro, que berra a atenção no mapa de Friederich Nieztsche é a exata oposição entre Sol e Plutão: Sol a 22 de Libra, Plutão a 22 de Áries.

De um lado do ringue, Apolo (Sol), com seu cinturão de luz e sonho, resplandecente e puro – pura consciência – fiel e confiante no princípio de individuação (gente é pra brilhar!); do outro, o desafiante, o sentimento de terror do aniquilamento e do delicioso gosto do êxtase, a ruptura do princípio de individuação, a embriaguez translúcida, Dioniso (Plutão) e, no meio, nada mais nada menos, o pobre coitado do Nieztsche. Onde estava Freud neste momento?

A esses deuses, Apolo e Dioniso, Nieztsche dedicou a sua primeira grande tese: O nascimento da tragédia ou Helenismo e Pessimismo (1872). Segundo ele, o mundo é regido por essas duas forças, a da coesão apolínea, e a do aniquilamento dionísiaco, que, por vezes, se conjugam, outras, se opõe. Para entender: de um lado a música apolar e de camisa pólo de Ivan Lins, do outro, o funkdioniso-samba-macaranã-movido-a-cerveja-e-suor de Fausto Fawcett.

Sol oposto a Plutão faz o sujeito ser um plutoniano. E estes seres são atravessados pela força estranha de trazer mudanças profundas à comunidade que se encontram – mesmo que isso lhe custe a própria pele.

Assim como Dioniso, plutonianos precisam morrer e renascer várias vezes. Nieztsche simplesmente anunciou a morte de Deus – assim como fez Hegel 30 anos antes. “Deus está morto. Viva perigosamente. Qual é o melhor remédio? – Vitória.”

Heath Ledger encarnou um cowboy gay em Brokeback Mountain, do diretor Ang Lee, escandalizando a sociedade americana com uma possível história de amor tão bela e comovente. Nieztsche desafiou os limites da loucura. Já louco, escrevia cartões postais assinando-os como se realmente fosse Ariadne, Dioniso… Morreu varado de luz. Por aqui, discute-se se o Coringa levou Heath Ledger ao Asilo Arkham da imortalidade. Heath morreu no dia 22 de janeiro de 2008, no final da tarde, por overdose de soníferos. Onde estava Batman neste momento?

Nieztsche louco morreu e, aí, agora, punk e anarquista, com o seu ascendente em Escorpião ativando Urano de Heath, sob outra máscara, niilista e gargalhante, ressurge na tela dos cinemas, na entrega dionisíaca de Heath Ledger ao personagem do gás (sonífero?) hilariante. Coringa só acredita num Deus que saiba gargalhar.

Joker é nieztschiniano, psicólogo, niilista, põe fogo no circo da nossa frágil moral civilizatória. Vamos às provas documentais colhidas em The Dark Knight:

1. O psicólogo Coringa sabe reconhecer um delator e diz isso na cara do mesmo – cena com a máfia e o delator chinês ( em época de Olimpíadas em Pequim, foi uma boa piada) – não se faz bandidos como antigamente;

2. Joker provoca Batman a tirar a máscara e a enfrentar a sua verdadeira identidade(?); mas sabe que isso é ridículo, afinal, a máscara do Batman é o Bruce Wayne, e não ao contrário; Batman cai como um patinho achando que, realmente, o seu arqui-inimigo quer matá-lo;

3. ao mesmo tempo, Joker maquia-se e se disfarça (policial, enfermeira, palhaço) com toda naturalidade que lhe é conveniente; em contraposição, Batman não esboça outro personagem a não ser o vingador que não sorri; o Coringa tem maior desenvoltura social – os psicólogos comportamentais teriam que tratar de Batman e não do Coringa – já a terapia de Batman é gargalhar ao menos uma vez na vida;

4. why so serious?;

5. o Coringa de Heath Ledger, assim como Nieztsche, sabe quais são as suas máscaras mais freqüentes – sorria, você está sendo filmado;

6. falando em comportamento, qual será a orientação sexual do Coringa? A do sátiro, é claro;

7. já Batman/Bruce Wayne não tem vida sexual, embora o milionário tenha sempre três ou mais mulheres a tiracolo;

8. a gargalhada também tem significado sexual, segundo estudiosos, a gargalhada é efeito pré e pós-orgástico; quem gargalha, goza – em outras palavras;

9. Coringa gargalha do fraco senso de identidade cultural e familiar representado pelo dna – a tão comum prova de paternidade do programa do Ratinho; gargalha da carteira de identidade sob o controle do Governo – o Coringa não têm elo no cartório, nem na delegacia de polícia e, muito menos, à ciência médica;

10. Joker fita e sorri às grifes do mundo ao vestir roupas sem etiqueta; na verdade veste Carnaby Street Mod look, como mostrou tão bem Ana Clara, aqui: Eu podia ser o Coringa;

11. Joker faz o promotor Harvey Dent enlouquecer diante do sim que é igual a não e do não que é igual a sim; o sim da Rachel é o não do Harvey e vice-versa; o sim ganha valor de morte trágica; Duas-Caras é metade Batman, metade Coringa;

12. Coringa não tem medo da loucura e, muito menos, de morrer (se dá à sorte da moeda fatídica do Duas-Caras); logo depois, lava as mãos;

13. Coringa ri do livre-arbítrio; como julgar bem, arbitrar bem, se está mal informado? – Batman toma uma decisão errada a partir de uma informação fake;

14. Na cena do interrogatório, Coringa apanha muito pelas mãos do Batman e, o Joker simplesmente, ri, ri, ri, ri…do impulso homicida do Homem-Morcego;

15. o Palhaço ateia fogo à uma montanha de dólares demonstrando seu desprezo por àqueles que topam tudo pelo dinheiro; o Coringa não quer corrupção de valores, quer grandes homens; Nieztsche dizia ‘o objetivo da humanidade não pode residir em seu fim, mas em seus espécimes mais elevados”; espécimes, leia-se: Goethe, Shakespeare, Nieztsche…

16. Coringa utiliza da mídia para espalhar o caos e testar os valores dos cidadãos – aliás, a utilização do rádio está na primeira história na qual o Palhaço do Ódio se apresenta; (o Silvio Santos é ou não é, guardadas as proporções, o Coringa da mídia do Brasil? );

17. o Bufo não usa celular, precisa pedir um emprestado, deste modo é mais difícil ser rastreado, grampeado, teleguiado; gargalha, portanto, do atual estado policial do mundo contemporâneo; se há Google Earth, imagina o que há disponível à intelligentsia que corre atrás de terroristas (sic)?; Batman faz uso da tecnologia para poder enxergar no escuro e controlar o cidadão de Gotham e depois é só digitar Lucius Fox, é claro, para acabar com isso;

18. o Coringa não é um terrorista no sentido estrito do termo – ele não quer tomar o Poder, o joker é um anarquista, um crítico do sistema, um punk pós-tudo, areia brilhante no mecanismo;

19. SE AINDA NÂO VIU O FILME, NÃO LEIA ESTE ITEM – nos faz patéticos, nós, espectadores, diante da democrática votação (cena dos barcos Liberty e Spirit) que decidirá se um barco deve mandar o outro para os ares ou não; não houve um voto em branco sequer – ah sim, é claro, americanos são Democratas ou Republicanos, não há uma terceira opção;

20. SE AINDA NÂO VIU O FILME, NÃO LEIA ESTE ITEM – o bandido, pobre, negro, do tamanho de um armário, resolve o dilema se deve apertar ou não o detonador; com o seu gesto diz: a pena de morte não é do homem – Batman, em seu primeiro ano de vida nos quadrinho, declara ser a favor da pena de morte praticada em alguns Estados dos EUA; e, assim, o negro capanga, com cara de rapper dá uma banana para você, para o Batman, aos Democratas e Republicanos e, principalmente ao… Coringa que fica com cara de bobo, o único momento que o Joker não soube o que pensar – aliás a cara do Joker nesta cena, foi tirada dos quadrinhos de forma magistral;

21. ah, e o Coringa não faz planos.

Heath Ledger nasceu no dia 4 de abril de 1979, Perth, Austrália, sem horário. Ele tem também a conjunção Marte-Mercúrio, ambos no mesmo elemento, no signo de Peixes. Nieztsche era um cirurgião da análise e da crítica – Marte em Virgo. Heath um camaleão, um mártir do teatro, uma geni no quesito transformação – Marte em Peixes. Enquanto um fazia uso da faca do pensamento agudo, o outro fazia uso da lâmina que poderia refletir imagens cortantes. E, detalhe: o Marte de um está exatamente oposto ao Marte do Nietzsche – um é a face do outro, trocando em miúdos. Até parece que Marte-Mercúrio do filósofo andou até ao outro lado da rua, para deixarem de se opor ao Juiz, Júpiter em Peixes, e à Criação, Urano em Áries, e aí nasceu Heath.

Heath Ledger TAMBÉM tem a oposição Sol-Plutão em seu próprio mapa. Então, de um lado do ringue, Apolo (Sol), com seu cinturão de luz e sonho, resplandecente e puro – pura consciência – fiel e confiante no princípio de individuação (gente é pra brilhar!); do outro, o desafiante, o sentimento de terror do aniquilamento e do delicioso gosto do êxtase, a ruptura do princípio de individuação, a embriaguez translúcida, Dioniso (Plutão) e, no meio, nada mais nada menos, o pobre coitado do… Heath Ledger. E no caso de Heath, Sol e Plutão em quadratura com a Lua em Câncer – o que o fazia mergulhar ainda mais na fantasia e na águas emocionais de qualquer personagem. Tomava o personagem para si também como uma mãe que aceita o filho tal como ele é. As cicatrizes do Coringa são por causa do pai – segundo uma das versões apresentadas no filme.

A diferença da oposição Sol e Plutão do filósofo alemão, está nos signos. Assim sendo, o Sol de Heath está em Áries conjunto a Plutão de Nieztsche, e o Sol do Nieztsche conjunto ao Plutão de Heath. Em suma, um é o apolo e o dioniso do outro. Heath e Nieztsche são, em vários aspectos, um espelho do outro. Assim como o Coringa é o outro lado de Batman, e vice-versa. O Joker até acha o Cavaleiro das Trevas divertido.

Quanto às Luas, Nieztsche era uma Lua Centauro, quente, queimava gente e selvageria dentro de si. Heath é Lua no Caranguejo, sentimental e vulnerável às águas emocionais, às pinças de dentro e do mundo de fora. Atores com tônica em signos de Água, principalmente no signo de Peixes, são os que trabalham com o conceito de imersão. Dioniso, em outra palavra. Em contraposição, alguém precisa fazer o papel de contenção – alguém precisa pescar o peixe do seu mundo de faz de conta.

Quando do começo das filmagens até a morte de Heath, o Sol progredia ao Nodo Sul em Peixes de Ledger. A luz do Sol encontrara às águas do mar da dissolução pisciana. Nunca foi bom, na história da Astrologia, encontrar o Nodo Sul pela frente. Então, realmente, a entrega à loucura do Coringa levou Heath Ledger no meio do sonho, à imersão ao centro sem centro sem fim de Peixes – overdose de soníferos (?).

Onde estava o astrólogo do rei neste momento?

E diz um camarada meu (GG): “o cara morreu porque queria dormir! que merda!”

E desde quando o Coringa dorme?

Mas me diga: afinal, de que tanto o Coringa ri?

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texto originalmente escrito em 2008 para o blog Io Saturnália.

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