As teias celestes do Homem-Aranha

Domingo, fim da tarde, pipoca, refrigerante gelado. A cada minuto, a sala mais lotada. Enquanto não apagam as luzes, uma menina puxa conversa com o homem à sua esquerda. Ela, 10 anos, ele uns 40, a mesma idade do Homem-Aranha. Escuta a menina dizer que o seu herói favorito é o Homem-Morcego. Acha o Aranha muito menino. Mas ela quer ser como a Mary Jane quando crescer. Brincou, falando sério, que só a ruiva Mary Jane faria Bruce Wayne gastar sua fortuna numa love story.

O pai, ao lado, arregala os olhos enquanto as orelhas espicham. O irmão interrompe a conversa dizendo que gosta mesmo é do Superman, lembrando a irmã que ela jamais será Mary Jane com aqueles óculos fundo-de-garrafa, o que lhe rende um tremendo chute na canela.

Apagam as luzes. Antes de vidrar os olhos na tela, a garota diz, compartilhando:

- Existe aranha míope?

No que o homem respondeu:

- Não sei. Mas signo deve ter.

- Quer uma pipoca?

- Quero.

- Mas agora fica quieto que o filme está começando.

E o filme começa. Sob o signo da Libra.

Simples, simples assim

Homem-Aranha – o filme é um fenômeno de massa. Já é a estréia mais vista num final de semana. E também a aventura mais vista na história do cinema, principalmente nos USA. Nem é preciso dizer dos cifrões que tiraram definitivamente a Marvel da falência. É a segunda vez que o Homem-Aranha salva a Marvel. A primeira foi em 1962, exatamente quando Stan Lee e Steve Kijto o criaram.

O Homem-Aranha é um herói atípico. Peter Parker, o menino que encarna o Aranha, não é um ser super-poderoso de outro mundo, como o Superman. Muito menos vingativo e endurecido como o Cavaleiro das Trevas. Não fica verde de raiva como o Incrível Hulk, nem exacerbadamente patriota como o Homem-América. O Homem-Aranha é um inseto tão aparentemente frágil quanto uma aranha-marrom.

Peter é um adolescente estudioso, tímido, igual a muitos: anda de ônibus, chega atrasado ao trabalho e, quase sempre, não sabe onde colocou as próprias meias. A força deste personagem está exatamente em ser gente como a gente e, no caso do filme, por falar de uma realidade que bate no coração de todos nós: como sair da teia familiar para ir ao encontro de suas próprias escolhas? Em linguagem astrológica: como responder satisfatoriamente à quadratura Câncer-Libra/Áries?

Milhões em marketing ajudam, mas falar de experiências humanas com simplicidade, ajudam muito mais para encantar multidões. E é assim que começa o filme: a voz de Peter dizendo, em off, que aquela história é comum a tantas outras por contar a vida de um garoto que está apaixonado por uma garota. Peter ama Mary Jane. Simples assim.

Ninguém é órfão de céu

Os mitos revelam que para o herói ser herói é preciso primeiro sentir-se abandonado. No rio, como faz Jocasta com Édipo. Superman ao cair de pára-quedas em outra terra. Batman, ao ver seus pais mortos. Luke Skywalker simplesmente já nasceu ao lado de seus tios afastados do mundo. Aqui há uma verdade tão antiga quanto o tempo: herói que se preze deve ser tocado pela orfandade.

Peter Parker, órfão de pai e mãe, é adotado com carinho e compaixão pelos tios Ben e May. Bem que se poderia dizer, parafraseando Nietzsche[1]: enquanto sentires os astros como algo acima de ti, o herói/consciência se sentirá órfão de pai e mãe.

Perceber-se separado do mundo desde dentro é um passo necessário para ir em busca de si e voltar a sentir-se umbilicalmente unido ao universo: é quando o herói abandona o abandono.

Mas ser abandonado na origem não significa que o psiquismo de Parker não esteja untado de infância. Se não fosse assim, não se importaria que Ben fizesse papel de pai. Aliás, Peter tem duas famílias: aquela que o cria e aquela que o lambe na lacuna da memória.

Não há nada mais pegajoso do que tentar responder expectativas familiares. O temido olhar da família, o fantasma da vida não vivida dos ancestrais, pode fazer a consciência andar de lado, fazendo da mágoa e do apego ao passado um motor para que a vida não caminhe adiante. Até Norman Osborn, o cientista cruelmente ambicioso, que depois se transformará no arquiinimigo Duende Verde, espera e vê algo em Parker: o filho que gostaria de ter tido – um menino com uma mente inventiva e curiosa.

Nesta luta com as pinças dos desejos familiares, é sempre necessário que se avalie o que dali sinceramente nos constitui. Discernir o próprio desejo e a própria vontade – Vênus (Libra) e Marte (Áries), respectivamente – é fundamental. Ambos encontram-se em quadratura com o Caranguejo ou, em outras palavras, em tensão com o drama familiar, com o testamento emocional da teia ancestral e com o sentimento de destino de pertencer e, ligar-se, para todo o sempre, com a história de um sobrenome. Peter Parker encontra-se no centro desta experiência, isto é, no coração de Câncer.

Carne mole

É difícil para Câncer ser assertivo, dizer o que quer ou o que deseja. Marte, o significador da vontade e do querer, está em Queda no signo de Câncer. Peter Parker é um anti-carneiro: doce e não-agressivo. Inclusive o ator que faz o papel, Tobey Maguire, um canceriano, tem um rosto feminino e um corpo, no filme, antes de se transformar no Homem-Aranha, flácido, sem tônus muscular. Aliás, Tobey Maguire teve que fazer muita, mas muita, musculação para fazer o papel.

O papel o levou onde estivesse, a fazer exercícios, já que nunca antes o atraíra o mundo de supinos, músculos e flexões.

“Pode-se observar muitas vezes, nos homens cancerianos, muita dificuldade em relacionar-se com o seu próprio sexo, porque os aspectos “heróicos” do masculino, parecem ser simplesmente brutais, agressivos e violentos”[2].

Mike Tyson[3], um dos pugilistas mais violentos da história recente do boxe, é canceriano. Órfão, adotado por D’Amato, um treinador de boxe, passou sua infância sendo chamado de “fadinha”, por causa do seu tom de voz e jeito de falar e pela convivência permanente com meninas. A sua violência nos ringues, e fora deles, foi construída sobre essas lembranças. Ao forrar suas luvas com modess, o que depois virou um procedimento comum aos pugilistas, Tyson nos remete à sua desesperada tentativa de tocar o feminino. A brutalidade é uma forma de não respirar e, à força, de não admitir os sentimentos de ternura, carência e de maternidade que tomam o universo de Câncer. Mas com Peter Parker é diferente: ele sabe que é aí que reside a sua humanidade. Tanto é assim que Peter, após ser picado por uma aranha geneticamente alterada que o faz ganhar super poderes, assusta-se com o fato de espancar facilmente um concorrente ao coração de Mary Jane. Fica evidente que ele não sabe muito bem o que fazer com sua força. O Homem-Aranha sabe.

Brutalidade, agressividade, violência, sugerem pontas, facas, arestas. E a forma que Peter Parker toma na pele do Homem-Aranha é arredondada, flexível, sem quinas ou pontas. O Homem-Aranha está longe do queixo pontiagudo e duro de Batman ou da solidão verde de raiva de Hulk. Enfim, aranha não tem dentes. Nem ossos. Sem falar que aranha é substantivo feminino.

Escorpião-Capricórnio sem revide

As aranhas quase sempre têm veneno, o que nos sugere Escorpião. Como Escorpião, o Homem-Aranha tem o poder de rápida regeneração, poder semelhante ao de Wolverine, outro personagem de Stan Lee, este sim mais Escorpião, Áries e lobo. Outra característica de Escorpião é o faro do Aranha, que o faz pressentir riscos e perigo. De características mais pantanosas, tais como forte demonstração de ciúmes, rompantes de destrutividade ou fantasias homicidas vistas no Wolverine ou em Batman, o Homem-Aranha passa longe. Ou melhor, ao lado, ao entrar em contato com seus arquiinimigos, destrutivos por excelência.

Há, inclusive, uma cena que Peter se recusa a que o sentimento de vingança, tão comum aos paranóicos plutonianos, faça parte de sua conduta. É quando ele procura uma competição de luta livre que premiará o melhor. Ao vencer o temido gladiador, o prêmio lhe é negado pelo dono do clube. No momento seguinte, quem enganou é roubado. No desespero, o empresário solicita socorro a Parker pedindo para que ele não permita que o larápio fuja com o dinheiro. Na esperança de se vingar, Peter não faz nada para evitar que o ladrão escape. Entretanto, na cena seguinte, esse mesmo sujeito fere mortalmente seu tio Ben. Enredado na dor e no flashback, Peter vê a conseqüência de sua pequena vingança: se tivesse evitado a fuga do criminoso, seu tio estaria vivo. Aliás, momento antes de morrer, Ben o aconselhava com um daqueles ensinamentos de boca a ouvido que ecoará como um mantra: “quanto maior o poder, maior a responsabilidade”. Nada mais Escorpião-Capricórnio. Após o fim inglório de Ben, Peter promete utilizar seus poderes unicamente para o bem das pessoas, renunciando de qualquer espírito vingativo.

Há na seqüência dessas cenas a idéia de que a vida é uma cadeia de causa-efeito, de que tudo está interligado como numa teia. Dorme um lado, desperta o outro. Este me parece que o maior ensinamento que reside em Saturno – Senhor da Responsabilidade: quem semeia vento, colhe tempestade. Isto pode evidenciar um forte traço capricorniano em Parker, mas prefiro dizer que Peter está amadurecendo o eixo Câncer-Capricórnio. Amadurecendo porque Peter carrega dentro de si poder, responsabilidade e um misto de dever e culpa muito maiores do que sua idade poderia suportar.

Os ensinamentos capricornianos, tais como, “disciplina é liberdade”, “quem espera sempre alcança” ou “o tempo é o único patrimônio”, estão todos fora de Parker. Os tios, por exemplo, são mais velhos e tentam discipliná-lo. O chefe do jornal em que trabalha considera-o um jovem inconseqüente. Em algumas histórias, há preocupação de Peter em envelhecer e a frase que o chama à responsabilidade sempre vem de fora (“quanto maior o poder, maior a responsabilidade”). Capricórnio ainda não está absolutamente cristalizado em sua personalidade.

Câncer eternamente jovem

Apesar de carregar uma responsabilidade do tamanho de um arranha-céu, Peter não consegue ser frio, seco, cruel, autoritário como muitos capricornianos. Por não constituírem parte de sua natureza, estes comportamentos, o agridem e ferem sua essência ímpar: Câncer. Aliás, se misturar a natureza protetora de Câncer com a responsabilidade social de Capricórnio, o que se tem é uma Mãe do Mundo.

Durante o filme, o Homem-Aranha é atraído para uma armadilha na qual a isca era o choro de um bebê. Será que o Aranha tem Saturno em Câncer? Não se deve esquecer que Parker é um adolescente, o que nos remete à eterna juventude do signo de Gêmeos. Curioso é que a tônica no universo teen alinha-se naturalmente ao stellium em Gêmeos avistada no céu no dia do lançamento mundial do filme (29 de abril de 2002).

A Cauda-do-Dragão de Tobey Maguire é Gêmeos, assim como o seu mercúrio que faz conjunção à Cabeça-do-Dragão do mapa da estréia. A profissão de Peter é geminiana: a de repórter, no caso fotográfico, o que lhe permite satisfazer a necessidade de transitar de Gêmeos. Sem contar que ele é um free-lancer, o que faz o seu espírito sentir-se mais livre, sem o vínculo do compromisso da carteira assinada com todos os seus direitos trabalhistas e planos de carreira. Gêmeos é um ser em trânsito. Por isso, a rua é o melhor lugar para o seu dominante impulso à curiosidade.

Este jeito free-lancer de ser entra em quincunce (150 graus) com Capricórnio: J. Jonah Jameson, o chefe do jornal em que trabalha, O Clarim Diário, considera-o um adolescente irresponsável. Mas, de fato, o que há de mais genuíno em Peter é seu jeito Caranguejo de ser: ele aceita o outro como o outro é. Ele, por exemplo, não quer mudar a Mary Jane, nem a tia May. Aceitar o outro é uma forma de proteger. Sem falar que a arma do Homem-Aranha, a teia, está dentro dele. A arma, yang por natureza, é yin. O feminino signo de Câncer é cardinal. Ora, o signo de Câncer rege a memória e, se a memória tivesse uma forma, certamente seria a de uma teia, que se tece de forma não linear, que tanto pode nos deixar amarrados ao vivido, quanto servir de ponte à compreensão grávida de entusiasmo: Câncer está em quincunce com Sagitário.

Mercúrio – O costureiro

Tecer, costurar, tricotar são atividades associadas a Virgo – o signo amante de trabalhos manuais. A sua mente naturalmente atenta aos detalhes faz com que tenha o caprichoso cuidado em dar um nó ou desatá-lo quando necessário. Virgem é regido por Mercúrio – o deus com asas nos pés, metáfora perfeita da inquieta mente humana. A mente movimenta-se como um dedilhar de dedos num violão – talvez, por isso, Mercúrio associa-se aos braços, mãos, dedos. E o gesto dos dedos e das mãos do Homem-Aranha tornou-se um dos seus mais importantes emblemas. O sextil entre Virgem e Câncer talvez queira dizer que a função mercuriana de associar, dissociar, ligar-desligar, costurar, existe para que os retalhos da memória tornem-se uma colcha ou um lindo vestido de sentido.

Outra característica que nos sugere Virgem, é o fato de Parker usar óculos, o que aponta ao excesso do uso da visão, o que denotaria características de observador atento aos detalhes e minúcias, com forte estímulo para a função interpretativa. Quem fotografa, interpreta.

Mas o que há de mais Virginiano em Parker, além do seu racional saber que o faz um estudioso obsessivo, é o fato de ter que se preocupar com coisas corriqueiras, tais como se alimentar, trabalhar para pagar o aluguel e se curar de uma gripe porque esqueceu o cachecol ao sair da casa de Mary Jane. As exigências do dia-a-dia são aspirinas de mortalidade.

Peter adoece como qualquer um que espirra.

Evidentemente, os signos mercurianos se quadram, o que o obriga a tornar a informação, Gêmeos, em algo útil e aplicável, Virgem.

Outra característica típica de Virgem é um desconforto com as coisas do coração. Durante o filme percebe-se claramente a dificuldade de Parker em expressar o seu encantamento para com a ruiva Mary Jane. Virgem é um signo que sufoca com racionalidade seu querer. Sua timidez o deixa desarrumado no papel do guerreiro, do conquistador à la Vadinho de Dona Flor. Enfim, Virgem está em quincunce com o Áries: a autocrítica impiedosa de Virgem reflete-se na lâmina confiante do Herói, turvando-a. Emprestando o que o virginiano Nelson Rodrigues dizia do também virginiano Brasil, Virgem é um narciso às avessas: o aplauso o envergonha, a crítica o humaniza. Vai ver é por isso que no Brasil não há super-heróis nos moldes da cultura americana.

Aliás, o nosso herói já nasce, quando nasce, anti-herói, desconfiando de super poderes tais como força, hiper confiança e capacidade de persistência. No Brasil, o que comumente é realçado não são as qualidades, mas as falhas de caráter. Macunaíma é o maior exemplo disso. É quando a falha vira uma qualidade.

Para se ter idéia, Batman, quando andou por aqui com os Piratas do Tietê[4], chegou a tomar uma bebedeira. Fantasma foi enganado por eles. Sua amada, Diana, acabou no colo do Capitão[5]. No rádio há um herói intitulado como genuinamente brasileiro: o Homem-Cueca, um herói office-boy que faz qualquer coisa “por 100 real mais o dinheiro do busão”. Por outro lado, os heróis brasileiros têm fundamentalmente uma característica em comum: a capacidade de rir de forma ácida. Veja o veneno de Fradim do Henfil ou dos Skrotinhos do Angeli. Virgem tem acidez gástrica nas palavras. Através da ironia ou da crítica, Virgem acaba expressando agressividade e vontade. Esse é um dos resultados do quincunce de Virgem com Áries: a inteligência analítica como forma de guerrilha.

Mas Peter Parker ainda não foi apresentado aos Skrotinhos. Ele ainda é puro, concentrado em ser prestativo e útil, a exemplo de Alfred – o mordomo virginiano de Batman.

Parker exacerba o pensamento lógico de Virgem, concentrando-se nos estudos, a ponto do filme retratá-lo quase como um nerd. Fico a imaginar um Zé Pilintra qualquer, virginiano evidentemente, ironizando a super-inteligência analítica de um também virginiano:

- Você se acha inteligente, né? Acha que sabe tudo, não é mesmo? A tua cabeça é ágil como um saci, mas o seu coração é tímido como uma besta…..hahaha

- Mas o meu coração também é meigo…

- E fácil de ofender… hahaha

Nada mais humano do que um coração meigo e fácil de ofender.

O eletro-choque devolvendo a musculatura Peter Parker é Gêmeos-Câncer-Virgem, mas há ainda outro signo que compõe o Homem-Aranha: Aquário.

Laboratórios, tecnologia, teorias, invenções, formam o universo de Aquário – este que representa o símbolo da humanização como também o abuso que se faz da Ciência em nome do progresso. Aquário é Dédalo – inventor máximo da mitologia grega, capaz de criar monstros, labirintos e filhos. Como bem lembrou Carlos Hollanda, em seu artigo Homem-Aranha: o mito do herói e a guerra dos signos fixos, na Constelar n°48 , “os vilões do Aranha em geral são, tal como ele mesmo, vítimas de abusos da Ciência, do interesse último no poder, e não na melhoria da condição humana”. E, conforme sua tese, todas as transformações genéticas ou químicas que ocorrem aos arquiinimigos, transformando gente comum em bestas, escorpiões ou simbiontes, jogam o idealismo aquariano encarnado no Aranha para se confrontar, de um lado, com o desejo de poder irracional de Escorpião, de outro, com os próprios desejos da natureza, Touro, e por fim, em oposição, com a vaidade do criador, Leão. Vale lembrar que dentro da cruz fixa, somente Aquário é uma figura humana.

Aquário é o Aguadeiro, representado por uma figura humana que se vê com um dos joelhos no chão enquanto segura um recipiente no qual circula água, que não chega a tocá-lo. É como se a figura estivesse afirmando que as forças das paixões que Touro, Leão e Escorpião representam devem ser realmente contidas, vista com certo distanciamento e respeitadas no gesto do ajoelhamento. Humanizar-se é domar o cavalo, não subestimá-lo.

E também não há nada mais aquariano que a velocidade com que o Homem-Aranha pula de um lado para o outro, somente comparável com uma transmissão elétrica ou com a produção de insigths que a mente aquariana não pára de maquinar. E cada teia formada lembra um neurônio expulso. Em uma conversa, Hollanda lembrou que as teias do Homem-Aranha podem ser vistas como o expelir de seu sistema nervoso. Sem falar da sua capacidade de voar, teia a teia, que nos faz pensar no voador Aquariano. Ao ser picado por uma aranha, Peter Parker acaba tendo sua cadeia de DNA modificada, o que o faz ganhar super poderes. O primeiro é o fim de sua miopia. O outro é a sua tonificação muscular. De franzino passa a marombado. Há um deslocamento da energia vital da cabeça (olhos, óculos) para os músculos, de Virgem para Áries. Do pensar (Mercúrio) para o agir (Marte). Segundo a psicologia reichiana, o bloqueio energético no nível dos olhos, nariz e ouvido, faz com que a emoção retida neste segmento seja o medo do contato. Pode ocorrer, como forma de compensação, uma excessiva produção de racionalização e fantasia, cindindo assim a noção de identidade, Leão. A excessiva racionalização faz com que não circule energia na altura do tórax, sufocando sentimentos de amor, ódio e ambivalência. A excessiva racionalização de Aquário e Virgem é o anti-Leão.

No momento em que Parker percebe seus poderes, sua musculatura tonifica, o seu peito estufa. E assim Áries devolve a Peter a confiança e o contato com o signo de Leão, dono da casa 5 – a do romance. E assim Parker consegue chamar a atenção de Mary Jane.

Teias feitas a dedo de deus

A picada da aranha que transforma Peter corresponde a um rito de iniciação. Ele não apenas fica ágil e musculoso, mas também se vê como uma nova consciência. Homem-Aranha – o filme, não é uma história na qual você verá vilões querendo conquistar o mundo e muito menos cenas ininterruptas de ação. Para você ter idéia, o Homem-Aranha propriamente dito aparece somente na metade do filme. O diretor Sam Raimi (Sol em Libra, Lua em Câncer), fã confesso do Aranha, preferiu focar sua câmara no amadurecimento psicológico de cada personagem. Soc! Pow! Pam! não interessam ao serem colocados ao lado da idéia de como um adolescente lidará com repentinos ganhos de super poderes. Por isso, o que se vê neste primeiro filme da série é a transformação de um menino num herói. Há o desenrolar, durante o filme, de toda uma dinâmica na qual vai surgindo a expressão de cada signo, e conseqüentemente, seus ganhos e seus conflitos. E essa construção se faz através de diversos Yods – ou Dedos de Deus, figura astrológica formada por um sextil (60 graus) e dois quincunces (150 graus).

O filme começa com Parker dizendo que aquela era uma história de amor de um garoto por uma garota. Em linguagem astrológica, a história começa nos remetendo à busca de um adolescente, Gêmeos, para ter contato com sua Vênus (Libra). E para se envolver com a Vênus, é preciso fazer Marte. No entanto, Parker, por sua timidez, Virgem, e o apego com a dinâmica familiar, Câncer, faz com que não tenha intimidade com Áries, que o faria mais conquistador e corajoso para se mostrar à menina que deseja. O que ele pode mostrar, até então, são os seus olhos úmidos, Câncer, e sua inteligência exacerbada, Virgem. De repente, é picado por uma aranha geneticamente inventada pela inteligência humana, Aquário, e assim ganha poderes tais como rápida regeneração e faro ao perigo, Escorpião, e também tônus e força muscular, Áries. E, em conseqüência, um sentido de identidade, Leão. Ao não saber o que fazer com tanto poder, recebe o ensinamento de seu tio, que o joga brutalmente à responsabilidade social, Capricórnio, depois de sentir-se responsável por sua morte.

E assim, cena a cena, vários Dedos de Deus são costurados: o primeiro, na seqüência do roteiro, Câncer-Virgem-Aquário. O segundo, Aquário-Áries-Virgem (Áries fecha um trígono com Leão). Virgem junto com Escorpião e Áries fecham o terceiro Yod (Escorpião faz um trígono com Câncer, e quadra Aquário e Leão). Áries-Gêmeos-Escorpião, o quarto Dedo. Escorpião-Capricórnio e Gêmeos, o quinto. Gêmeos-Leão-Capricórnio, o último Yod. Podemos concluir que Parker e o Homem-Aranha se dividem nestes pontos. Parker está mais para Câncer, Virgem e Gêmeos e o Homem-Aranha entre Áries, Gêmeos, Leão, Escorpião, Capricórnio. Aquário é o início da ponte entre os pontos.

Há ainda outro Yod, procurando se manifestar entre Leão-Libra e Peixes, porém as quadraturas e oposições formadas no decorrer da construção da teia não permitem. Não se pode esquecer que Áries faz quadratura com Câncer e Capricórnio que quadram Libra. Sem falar da quadratura T entre Escorpião-Leão-Aquário.

Na cena final do filme, quando Mary Jane enfim enxerga Parker, reconhecendo o seu valor de Câncer-Virgem, no momento que parecia que, enfim, o Homem-Aranha poderia ser Peter Parker, tendo o seu amor correspondido, este acaba renunciando à relação por ter que responder à frase fatal herdada do seu tio: “quanto maior o poder, maior a responsabilidade”. E, assim, acaba sendo preso nas teias da culpa e responsabilidade para ser altruísta, Aquário, um herói que renuncia a si mesmo, Leão, a favor do grupo. E assim, Libra fica a ver o sol se pôr.

Devido ao forte senso saturnino de responsabilidade e de proteção canceriano, um dos motivos da renúncia à experiência erótica é exatamente o fato de entender que não pode expor Mary Jane como sua namorada, prevendo que ela poderia ser alvo de algum arquiinimigo que viesse a descobrir sua identidade. Além disso, não seria agora, após provar o gosto de áries-leão-escorpião-aquário, afastando-se da segurança do mundo conhecido de câncer-virgem, que Peter Parker renunciaria a essa nova condição.

Quincunce – O mais humano dos aspectos

O quincunce é visto comumente como um aspecto de ajuste, o que parece justo, mas por que não dizer que este é um aspecto criativo? Ainda mais quando a figura do Yod está composta? Insisto na idéia de que há criatividade no coração desta figura por alguns motivos muito fortes: o primeiro, o fato de que o Yod agrega três signos, um de cada elemento, e os três ritmos de uma vez.

No caso de Virgem-Câncer-Aquário, por exemplo, o que se vê é a junção da Água-Terra e Ar e dos ritmos, a lembrar: cardinal, fixo e mutável. Ou como você preferir: ação, conservação, movimento. No Yod não há excesso de ritmo como há num Quadrado ou de elemento como num Grande Trígono. Figuras geometricamente mais estáveis resultam em dinâmicas astropsicológicas mais tensas e exageradas. Não é o que ocorre com o Dedo de Deus – configuração criativa por excelência.

Costuma-se dizer também que o “ajuste” do Yod estaria em um dos pontos do sextil. Mas qual deles? No caso de Câncer-Virgem quincunce a Aquário, por exemplo? Neste exemplo, Virgem e Aquário são praticamente o mesmo signo. A inteligência analítica de Virgem com a compulsão inventiva de Aquário reforçam-se mutuamente. Aí está uma explicação de porque Virgem se envolve com a vida artística ou inventiva. O ponto de resolução, portanto, é Câncer que compreenderá Aquário através de Virgem. Razão sem qualidade do sentimento torna-se acéfala e sem coração.

No caso do Yod Aquário-Áries quincunce à Virgem, novamente aí se vê o reforço da liberdade de pensar aquariano com o mundo mental de Virgem. Deve-se reforçar na consulta, Áries, para que os músculos possam dar vazão ao sistema elétrico.

No Yod formado entre Virgem-Escorpião quincunce à Áries, pode-se afirmar que Áries e Escorpião são as duas faces da mesma moeda. O ponto de equilíbrio é Virgem. É preciso um pouco de razão a tanta paixão. Escorpião auxiliará Virgem a compreender Áries.

Enfim, o que não é novidade para ninguém, Terra e Água se assemelham e se auxiliam, assim como acontece entre os signos de Ar e de Fogo.

Durante uma consulta é possível encontrar mapas nos quais o Yod não está formado. Às vezes, há apenas um quincunce ou um sextil. Diante disso, o intérprete deve procurar fazer nascer a experiência com o ponto que está presente apenas virtualmente. Por exemplo, num mapa em que há forte presença de Virgem e Aquário, cabe nos escolher entre realçar a experiência canceriana, ou por outro lado, Áries. Defendo a idéia que se a pessoa for mais o transgressor aquariano, Câncer deve ser chamado à presença. Se, ao contrário, a autocrítica paralisante de Virgem governar, Áries deve ser convocado.

No caso do Homem-Aranha, Áries foi realçado, criando uma nova e criativa dinâmica psicológica. Se se deparar apenas com o sextil, por exemplo, entre o Centauro e o Aguadeiro, evidentemente é preciso encaminhar o consulente rumo às raízes de Câncer.

Veja, por exemplo, o caso de outro herói, Batman. O Homem-Morcego é Escorpião-Capricórnio. Escorpião pela sua motivação de fazer justiça com as próprias mãos, traumatizado pela dor de ter presenciado o assassinato de seus pais quando tinha apenas oito anos. E Capricórnio por sua máscara e musculatura rígida que tem a função de protegê-lo de suas próprias emoções e dores. Além de conter o instinto de aniquilamento de Escorpião. Em suma, o Cavaleiro das Trevas não tem jogo de cintura, sendo praticamente um depressivo. Entretanto, o arquiinimigo no. 1, Coringa, é Áries-Gêmeos-Leão, exatamente os pontos que farão quincunce com Escorpião-Capricórnio, fechando três Yods. Gêmeos, por que faz da piada uma arma. Áries, porque a sua piada é mordaz, além de ser o arquiinimigo no. 1, e Leão, porque gosta de entradas triunfantes. Coringa tem jogo de cintura. Por isso, um tem o que o outro precisa. E vice-versa.

Batman precisaria do humor de Gêmeos e o Coringa da Lei de Capricórnio, como também a capacidade de aprofundamento de Escorpião. Batman e Coringa, ou quem possui um forte e consolidado sextil, porém órfão de quincunce, deveria ouvir o conselho de YODa, o sábio de Star Wars:

- Yoda-se!

Peter Parker ouviu.

Entre as torres gêmeas

— Ei, você está me ouvindo! Já estão passando as letrinhas…

— Ah… e aí gostou do filme, menina?

— Gostei, mas bem que o Peter podia ter beijado a Mary, né?

— Mas isso fica para próxima.

— Isso se ele tirar as torres do World Trade Center das costas.

Falando em WTC, é provável que O Homem-Aranha – o filme, tenha se tornado o fenômeno que é nos USA, por ajudar a resgatar, de alguma maneira, a idéia de imortalidade que a juventude eterna Geminiana alude e ilude ao povo americano. Os USA têm Urano e Marte, o Guerreiro, em Gêmeos. Os dois heróis de maior popularidade nos USA, SuperMan e Homem-Aranha, são repórteres e eternamente jovens. Se houver outro ataque terrorista, quando Plutão se opor a Marte, nos primeiros meses de 2004, não espantaria nada que o alvo seja um grande jornal, centros de imprensa e televisão, ou a própria indústria de cinema.

O filme, de certa forma é uma lição à condição que a cultura americana se encontra, como também a sua valorização. Valorização, porque o personagem caracteriza-se com os principais signos, só para ficar com os planetas pessoais, que compõe a carta americana: Câncer, Gêmeos, Aquário. Lição, porque se fomos pensar toda essa história do Peter Parker/Homem-Aranha como um enredo em busca de relacionamento, Saturno em Libra quadrando o Sol em Câncer na Carta Americana, resume o seu drama.

E os USA, principalmente depois do WTC, se vê tendo que ouvir que “quanto o maior o poder, maior a responsabilidade” e, sem sombra de dúvida, essa é uma frase de Plutão em Capricórnio que, aliás, encontra-se em oposição a Mercúrio americano, regente da Casa 7 – a das parcerias e inimigos declarados.

O Homem-Aranha é realmente um herói novaiorquino. Inclusive tem endereço na cidade. Mora bem ali no bairro de Queens, em Forest Hills, uma vizinhança de classe média com casas em estilo Tudor. Rua Ingram, 20. Foi publicado em 1989. Por coincidência o casal que mora lá há 28 anos tem o mesmo sobrenome do herói. Ao olhar o Céu da Big Apple[6], vê-se que o mapa propõe um herói ideal, Marte em Câncer com fortes traços de Virgem e Gêmeos, já que a Lua, dispositor de Marte, tem o seu dispositor em Virgem, que, por sua vez, abaixa a cabeça à Mercúrio domiciliado em Gêmeos. Quando Saturno (14° Gêmeos) fez conjunção aplicativa à Mercúrio (17°) de Nova Iorque e Plutão (12° Sagitário), mesmo que distante, fez oposição, o Homem-Aranha viu as Torres Gêmeas de sua cidade serem destruídas. O Tempo e a Morte tocaram Mercúrio, o eterno jovem.

A essa química toda ainda se soma o fato de que o ator, Tobey Maguire[7], tem Mercúrio conjunto ao Mercúrio de Nova Iorque e unido ao Marte Americano. Como também Sol e Saturno, conjunto a Júpiter-Vênus e Sol da Carta Americana. O seu Sol e Saturno estão conjunto ao Marte e ao Ascendente, respectivamente, de Nova Iorque. Sem falar que Tobey e os Estados Unidos comungam da mesma Lua em Aquário. Aliás, é a Lua também de Stan Lee[8], o pai do Aranha.

Mas tem mais: Sam Raimi[9], o diretor, tem uma Lua em Câncer. Sete meses depois do atentado ao WTC, quando Júpiter retornou no mapa americano, fazendo conjunção ao Marte novaiorquino, e Vênus, Marte, Saturno e Nodo-Norte encontravam-se em Gêmeos, e este último, conjunto ao Marte Americano e ao Mercúrio novaiorquino, Homem-Aranha – o filme, tornou-se o filme mais visto na história do cinema. Uma simples aventura, repleta de clichês, pode estar terapeutizando a História Americana.

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[1] “Enquanto sentires os astros como algo “acima de ti”,não possuirás ainda o olhar do vidente”. Nietzsche, Além do Bem e do Mal, p.88, Hemus Editora.

[2] Liz Greene, Astrologia do Destino, pág. 180, Editora Pensamento.

[3] Mike Tyson, 30/06/1966, Catskill, NY, USA. Fonte: Internet.

[4] Laerte. A Terceira Margem. Piratas do Tietê e outras barbaridades, Editora Ensaio, 1994.

[5] Laerte. Vozes da Selva. Piratas do Tietê, Editora Circo, junho de 90.

[6] Nova Iorque, 16/05/1626, às 09:10. Mapa pesquisado e retificado pelo astrólogo Carlos Hollanda. Fonte: Constelar, no. 40.

[7] Tobey Maguire, 27/06/1975, às 08:20, Inglewood, CA, USA. Dados AA. Dado fornecido a Data Brasil por Marcello Borges após consulta com Lois Rodden.

[8] Stan Lee, 22/12/1922, New York, New York, USA. Fonte: Internet.

[9] Sam Raimi, 23/10/1959, Royal

Oak, MI, USA. Fonte: Internet.
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Este texto foi escrito logo depois da queda do WorldTrade Center, 2001. O que vimos depois é que Bush não leva a sério o seu próprio cinema.

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