Se agora cá viesse Ptolomeu, Strabo, Pompônio, Plínio ou Solino…
domingo, fevereiro 28th, 2010O novo mundo que surge na segunda metade do século XV é caracterizado pelo extraordinário desenvolvimento das ciências, da escrituração e das técnicas de construção de máquinas. Fidalgo e humanista, Camões acredita que o saber teórico é superior aos saberes técnicos dos oficiais mecânicos e, como já foi apontado por vários estudiosos, faz descrições sumárias deles em Os Lusíadas. Mas, ainda que tenha cuidado em reproduzir o modelo ortodoxo e tradicional de universo que vimos no episódio da máquina do mundo, opõe o saber da experiência empírica ao saber livresco tradicional, provavelmente porque também estiliza a sua própria experiência, além de citar textos de contemporâneos adeptos dela. Em seu Tratado da Esfera, de 1537, Pedro Nunes escreve que o contato dos portugueses com as novas realidades físicas e humanas dissipou “muitas ignorâncias” da cosmografia ptolomaica e escolástica. Numa parte desse texto, o Tratado em defensam da carta de marear, afirma que “os descobrimentos de costas, ilhas e terras firmes não se fizeram indo a acertar, mas partiam os nossos marcantes mui ensinados e providos de instrumentos e regras de astrologia e geometria; que são as cousas de que os Cosmógrafos hão de andar apercebidos”. O conhecimento obtido empiricamente é novidade que pressupõe e valoriza a experiência vivida, não a experiência textual das autoridades escolásticas. Assim, no Esmeraldo de situ orbis, de 1502, Duarte Pacheco Pereira diz que a experiência vivida é “madre das cousas” que ensinou “radicalmente a verdade” e “o contrário do que a maior parte dos antigos escritores disseram”. Também Garcia da Orta, no Colóquio do benjuy, na metade do século XVI, pede que não lhe ponham medo com Dioscórides nem Galeno, autoridades antigas, porque não vai dizer senão a verdade do que aprendeu pela observação. E o historiador João de Barros, cuja história Camões põe em verso quando conta a história dos reis portugueses, escreve, em seu Ropica Pnefma ou Mercadoria Espiritual, de 1532: “[...] se agora cá viesse Ptolomeu, Strabo, Pompônio, Plínio ou Solino com suas três folhas, a todos meteria em confusão e vergonha, mostrando-lhe que as partes do mundo, que não alcançaram, são maiores que as três em que eles o dividiram”. Camões diz quase o mesmo: “Se os antigos filósofos que andaram/ tantas terras por saber segredos delas/ as maravilhas que eu passei passaram/ a tão diversos ventos dando as velas,/ que grandes escrituras que deixaram!”. É ainda a experiência vivida que, na estrofe 149 do Canto X, caracteriza os portugueses como gente que sabe “O como, o quando, e onde as cousas cabem”.
(João Adolfo Hansen, “A máquina do mundo”, texto sobre Camões em Poetas que pensaram o mundo, da Companhia das Letras)
>> Marcos Visnadi

Onde será que está o Gato da Alice? 








