A prática da astrologia
sábado, março 6th, 2010Astrologia é entre. Quadratura, Sol, Lua ou casaco de vison não tem nenhuma importância. O céu astrológico não interessa. Penso que o que importa mesmo é a força que une.
Técnica só a de dentro da técnica. A tradição transcriada para a língua brasileira, carnavalizada. Netuno sugerindo saudade.
Há algo invisível e denso entre o horóscopo, o dono do horóscopo e o tradutor. Acredito que todo esforço e estudo obstinado deve perseguir este objetivo: ouvir o espaço e eternizar o tempo na leitura.
A personalidade é naturalmente conservadora, dura, fechada em si mesmo. É o cão mordendo o próprio rabo. Facilmente o horóscopo revela como se dá esta mordida. Através da Astrologia, temperamento, posturas e impulsos são previsíveis, claros e concretos, assim como é certo que a vida tem sabor.
Na maioria das vezes, a personalidade atrapalha a alma. Afinal, nem tudo que cristaliza é diamante. No entanto, no restante, a alma se espreguiça. Entre. É aí que devemos estar. Com a alma da pessoa.
Encanto, saudade do não-vivido, ancestrais mais do que vivos, esperança, superação, amor, tumulto, multidão, silêncio sem pressa, ruído, busca, metamorfose, existência teimosa, brilho e o que você notar, acompanha a pessoa em busca do destino e do sentido sob o Céu que nasceu. A leitura do mapa astral equivale a confiar a alguém um universo único, corporificado, unido ao mundo. Esse olho a olho mediado pelo céu simbólico, deve ser valorizado como um espaço singular e raro – por que assim o é.
Sinto que para fazer jus a essa condição, a tradução do horóscopo (mapa astral) deve ser uma leitura aberta. Co-criadora. Leitura em movimento circular e concêntrico. Essa é a natureza da linguagem analógica, mítica ou onírica. Lua com asas, garras e sangue de Escorpião. Uma pergunta na ponta da língua. Virgo com ascendente em Zeus. O amor igual a uma pétala. Plutão com cara de rocha. A metáfora é casa das máquinas da nossa mente.
A medida ética é que tudo isso simplesmente surja.
A Astrologia lida com conhecer a ordem das coisas: harmonia no caos. Esta é a sua vocação: conhecer a natureza e o tempo de cada coisa. Geralmente, quando alguém procura uma leitura astrológica, busca-a porque avista o caos. Ou saiu dele, vazio. Esses momentos provocam angústia e acabam abrindo brechas na personalidade que possibilitam ao sujeito re-significar sua própria vida. A função do interprete é fazer eco ao novo mundo que se forma, transformando terra à vista em vivência. Procurando tornar um mundo em transe consigo mesmo. A leitura do horóscopo é um começo de conversa com o símbolo. Principalmente com aqueles lados de um determinado símbolo que está em completa solidão. E com muita raiva. Trânsitos e progressões indicam a presença de uma ou mais faces humanas em maior evidência. Plutão e Saturno caminhando juntos é um convite à justa medida. Há cenas em que Vênus quer fazer nascer, mas Júpiter não deixa. Urano promove ventos. Sol conjunto a Marte dá à luz a uma semente. A dança dos signos e sentidos, ascensão e queda e ascensão de impérios simbólicos, está lá no horóscopo. Mixando, sampleando, encenando, transformando.
Mas não importa que esteja no horóscopo. Importa é que esteja entre. Entre o intérprete, a pessoa e o horóscopo. Aliás, este último, não passa de uma espécie de cordão que um dia uniu o céu e a terra e nunca jamais perdeu essa vocação.


