Um estranho em Goa
sábado, agosto 8th, 2009(…) Assusta um pouco mergulhar nas águas nocturnas, sentindo o lodo debaixo dos pés, e vendo as luzes a dançar ao longe. Ao mesmo tempo sente-se ascender de toda aquela imensa massa líquida uma espécie de força pacificadora que, docemente, nos empurra para o abismo. Coloquei os óculos de mergulho, esvaziei os pulmões, e deixei-me afundar lentamente. Vi formar-se entre os meus dedos a ardência marítima, fenômeno a que no Brasil também se chama buxiqui, provocado pela existência na água de minúsculos protozoários de corpo luminescente. Estrelas desprendiam-se aos mais pequenos dos meus gestos, ficavam um pouco à deriva formando desenhos de luz, e depois dispersavam-se e subiam, juntando-se à outra noite, ao outro rio, às nítidas constelações que flutuavam lá em cima-na eternidade.
Chamei Lili e ficamos algum tempo a brincar aos deuses, em silêncio, criando estrelas com um simples gesto. Mais tarde, estendidos nas cadeiras, Lili mostrou-me no céu o desenho formado por um grupo de treze frágeis pontos luminosos. Parecia uma papagaio de papel com uma longa cauda quebrada.
-É difícil vê-la nesta altura do ano, -disse-é muito raro. Apresento-te a Constelação de Draco.
Depois despiu o fato de banho e mostrou-me o peito. A pele dela parecia iluminada por dentro. Tive a certeza de que continuaria a ver, mesmo sem a débil luz do único candeeiro existente na praia. Lembrei-me de um verso terrível de Sylvia Plath, my skin bright as a Nanzi lampshade, a minha pele brilha como um abajur Nazi. Viam-se distintamente treze pequenos sinais negros, dispostos entre os dois mamilos como as estrelas de Draco. Se lhe fotografassem o peito o negativo dessa imagem seria semelhante àquele céu.
-A estrela Alpha Draconi, ou Thuban, era há 4.800 anos a estrela polar, ou seja, estava posicionada directamente sobre o polo norte. Os antigos acreditavam que o polo celeste era a porta entre este mundo e a eternidade e por isso fazia sentido que, a guardá-la, estivesse um dragão.
Eu não sabia o que pensar.
-Se nos encontrarmos numa próxima encarnação, -suspirou Lili- e eu tiver uma aparência muito diferente, ainda assim saberás quem sou por causa destes sinais.
Disse-lhe que não gostaria que ela fosse diferente, nem pouco nem muito, achava-a perfeita assim. Quanto a mim, qualquer coisa servia, poderia reencarnar numa abóbora ou num gafanhoto, contando que não fosse outra vez em Angola. (…)
O angolano José Eduardo Agualusa é um dos maiores escritores africanos de língua portuguesa da atualidade. Estou devorando o seu livro. E tal fenômeno, o dos protozoários luminescentes, chamado buxiqui, eu mesma presenciei, em Ibiraquera, Santa Catarina.
Para os que querem ver a Constelação de Draco, hoje, ei-la:
