Apolo e Mársias
segunda-feira, novembro 9th, 2009
Comecemos então esta semana vigorosa, forte e vitaminada com o super Horóscopo do João e com esta imagem forte aí de cima? Ela é de Jusepe de Ribera, mais conhecido como Spagnoletto. O quadro é de 1637 e está no Museu Nacional de Nápoles. Me lembra Caravaggio com essas tonalidades de claro e escuro e Tintoretto a causa das cores fortes. E me lembrou também a foto Não morrerás afogado da Constance, que parece igualmente uma pintura.
E quem quiser saborear mais uma fatia do mito de Apolo, aí vai:
Dizem por aí que a invenção da flauta se deve à deusa Atenas, ou Minerva, seu nome em romano. E dizem também que, rapidamente, ela se livrou do instrumento quando viu o reflexo do seu rosto, num riacho, deformado a causa do uso da flauta. Os lábios da bela deusa teriam ficado inchados, pobrezinha. Hoje, para os cânones de beleza, isso não seria absolutamente um problema, né não?
Dou um pirulito a quem adivinhar de quem é esta bela boca

Voltando à vaca fria…foi aí que Mársias, um sátiro, a encontrou por acaso, a flauta, e se deu conta que o instrumento emitia sons maravilhosos. Orgulhoso pela descoberta e convencido que a música da flauta fosse a mais bela do mundo, o Sátiro, se achando a última bolachinha do pacote, desafiou Apolo para uma competição musical. Propôs ao deus de recriar o mesmo som com a sua cítara. Apolo aceitou o desafio, com a condição de que o vencedor pudesse fazer do vencido o que bem entendesse. Pobre Mársias. Pobre Mársias. Pobrezinho do Mársias…
O juri, composto pelas Musas, decretou a vitória de Apolo, pois o deus era capaz de tocar a lira até de cabeça para baixo, obviamente. Coisa que Mársias não era capaz de fazer com a flauta. O deus do Sol, então, como estabelecido pelo acordo, fez com o adversário aquilo que queria: para punir a insolência de Mársias o pendurou em uma árvore e o esfolou vivo. Aia! Os outros sátiros e as divindades do bosque choraram Mársias, desesperados, e as suas lágrimas deram vida a um rio, ao qual foi dado o nome de Sátiro, e que fica na Ásia Menor.
Conclusão: não é bem assim desafiar um deus, nem com todo café no bule do mundo. O sátiro vem punido pelo seu excesso ou hybris. E hybris segundo a Wikipedia italiana, numa tradução super livre minha é:
‘… uma ‘culpa’ devida a uma ação que viola leis divinas imutáveis, e é a causa pela qual, até mesmo à distância de muitos anos, os personagens, ou seus descendentes, são levados a cometer crimes ou sofrer com a malvadeza de outros. A este termo se associa também outro que se chama nêmesis que significa ‘vingança dos deuses’, ‘ira’, ou ‘desprezo’. E se refere à punição infligida pelos deuses a quem excede, exagera e age com arrogância, hybris.’
Lembrei d’ O Mito do Escorpião é um enigma ….
E me pergunto… será que o erro trágico de Órion – o caçador de si mesmo - não foi justamente o excesso? O excesso de ambição, o excesso de vinho - bebida de Dionísio, Baco, que de comedido não tem nada - que resultou no estupro de Mérope e, também, a causa do excesso de vaidade? Na cena 5 do post do João aparece isso bem explicadinho e ali vemos, outra vez, quem? Apolo. Corram lá!


