Aquário, o Rapto de Ganimedes


O Rapto de Ganimedes/Rembrandt
Um dia, Ganimedes, o mais belo dos mortais, fez Zeus ficar de joelhos por conta da sua beleza estonteante. Zeus transforma-se em águia e o rapta. No Olimpo, a morada dos deuses, para onde é levado, toma a função de servir o vinho, o néctar, a ambrosia, aos divinos. Por isso verá Ganimedes (Aquário) portando ânfora, vasos ou uma taça.
Aquário, O Aguadeiro, é o garçom dos deuses. O zelador da água potável (em mitos mais antigos). Signo do zodíaco que já nasce com função social.
Ganimedes é filho de Trós, rei de Tróia. Um príncipe, portanto. Herdeiro do trono de Tróia, assim como o seu irmão, Ilo. Mas antes que o Poder chegasse às suas mãos, Zeus é arrebatado por sua beleza e o rapta. Para aplacar a dor atroz de Trós, Zeus oferece uma parreira de ouro e dois cavalos. O todo-poderoso Zeus, em troca de Ganimedes, faz uma oferenda ao pai do mortal mais belo. Zeus/Júpiter, assim, presta homenagem ao Rei, pai de Ganimedes.
Pelo poder de Zeus/Júpiter, o mortal mais belo torna-se um deus imortal: Ganimedes vai parar no céu. Nada mais Aquário: um ser humano chegar a habitar o panteão dos deuses do mundo por sua beleza.
Muitos enxergam em Ganimedes o protetor dos novos governantes e sua transição. Ganimedes como o ‘novo rei’ que presta homenagem (serve vinho) ao ‘velho rei’ que lhe presta homenagem ao torná-lo imortal.
O Aguadeiro Celeste também é visto como um deus do amor homossexual – transgressor por natureza por romper com a lógica da procriação da espécie – assim também como do amor do mais velho ao mais novo (amores hierárquicos?). Quando a noite vem, é possível ver Ganimedes na constelação de Aquário, com sua ânfora divina, vertendo o vinho dos deuses sobre nós.
Pedro Campi, pergunta:
“Essa transgressão aquariana gera, ou melhor, pensa o progresso (nem sempre o idealizador é o realizador). O fato de haver associação com o amor homossexual me faz pensar que é um signo ou um mito onde o feminino fica em segundo plano, já que há o rompimento com a procriação natural da espécie, sendo portanto uma energia significativamente masculina, correto? Ah, qual a relação de Aquário com Prometeu?”
Quando levanta os olhos para o Céu e vê o Aguadeiro derramando a água celestial sobre nós, é Ganimedes que está ali, e não Prometeu. Antes de Ganimedes, os egípcios tinham lá também o seu Deus que derramava água ao encher o Rio Nilo e salvava, assim, toda a tribo da inanição. Aquário, como vimos, é o Aguadeiro que serve o ‘bem-bom’ aos deuses do Olimpo. O signo de Aquário já nasce com uma função: o de servir e o de zelar a água e o néctar dos deuses, o de servir e o de zelar a água, o néctar dos homens.
“Houve uma vez em que o rei dos deuses se inflamou de amor/ pelo frígio Ganimedes, e teve a idéia de transformar-se em/uma coisa que outrora tanto lhe parecera mais bela do que ser/ Júpiter: uma ave. Mas, entre todas as aves, não se dignou de/ transformar-se senão naquela capaz de portar os raios, suas armas./ Dito e feito: batendo o ar com falsas penas, raptou da estirpe de Ilo/ o jovenzinho, que até hoje lhe enche os cálices e lhe serve/ o néctar, enfurecendo Juno.” (Ovídio, Metamorfoses, Livro X)
Ganimedes e Júpiter compõem um casal no qual não há espaço para a presença feminina, a não ser a da Águia. Aliás, Juno fica uma arara com essa história toda. Por essas e outras, para os gregos, Ganimedes é um deus patrono do amor homossexual. Da homossexualidade masculina, tenho dito. Ou da amizade, entre homens, segundo Freud. Aquário é a afirmação da pulsão masculina, entre homens, para os homens, por causa dos homens. Clube do bolinha. O feminino aqui não se cria. Afinal, Ganimedes liberta Júpiter Garanhão da obrigação da sua função procriadora. Com Ganimedes, Zeus experimenta outro amor, além da natureza, além do corpo, além da genética, muito além da ‘obrigação’ de fertilizar o mundo com o gen da divindade.
Aquário é o super-homem, o impulso civilizatório, a fecundação in vitreo, a transição política – para o bem estar da comunidade (seja lá qual for o bem que Aquário suponha ser o melhor para sua tribo) e também a relação do menino com o homem já feito (aqui está a quebra da convenção hierárquica, social, familiar que tanto se atribui a Aquário).
Ganimedes é tão humano, mais tão humano, que é elevado aos Céus e ao Olimpo pelo amor de Zeus/Júpiter. Aquário, aos olhos do todo-poderoso senhor do Olimpo, está além dos Deuses que, por sua vez, foram cunhados à imagem e semelhança dos reles temperamentais homens e mulheres demasiadamente humanos.
Associação do mito de Prometeu a Aquário? Sim, essa associação é feita. Não sei bem quem relacionou primeiro o Aguadeiro com ‘Prometeu Acorrentado’, mas creio que seja uma relação recente na literatura astrológica. Geralmente associam o impulso prometéico, de roubar o fogo dos deuses a favor dos homens, ao espírito progressista, ateu e comunitário do Aquário. Aquário kamikase.
Nildo Says:
“Ainda há outro que também é associado com Aquário de vez em quando, o de Ícaro”.
Geralmente, mitos de ‘queda do céu’, são associados a Aquário. Ícaro é um deles. O próprio mito de Urano – O Céu, é associado a Aquário. Urano viajando na sua potência fálica é castrado pela foice de Saturno, isto é, cai das alturas celestiais pra debaixo do barro do chão. Urano rege Aquário, para a Astrologia contemporânea. Não poderia ser outro signo mesmo. O Padre Adelir Ícaro deve ser de Aquário.
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publicado originalmente no blog Num Dia de Júpiter, Na Hora de Marte, 2007.






