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Dor de batucada

quarta-feira, novembro 11th, 2009

Ainda não teve nenhum apagão (até agora, pelo menos, 22h40), mas o que falta de luz falta de escuro, não há bonança elétrica que esconda. Quer ver?

Acabo de ler no Boca no Trombone essa resenha rasga-coração. Que me fez lembrar desse poema, da Esmeralda Ribeiro. Que me fez lembrar que este é o mês da consciência negra. Então, boa leitura.

*

Falar negramente
nem claro
nem negligente

Tornar negro
sem ficar claro
sem clarear a mente

Falar negramente
nem que para isso
eu fale naturalmente

Banir da língua negra
a palavra racista
que alguém implantou
no vocabulário pobre, branco, manco
que o negro invejou

(nos Cadernos Negros, nº 9)

*


*

Dor de batucada

O Brasil raramente reconhece como nobres suas cantoras negras, ao contrário do que ocorre nos Estados Unidos com Billie Holiday, Sarah Vaughan, Ella Fitzgerald, Nina Simone ou Dinah Washington. Se é que temos nossas equivalentes às grandes damas do jazz, elas atendem por nomes como Elis Regina, Gal Costa, Maria Bethânia ou Nana Caymmi, todas de peles bem mais alvas que as das congêneres norte-americanas.

Não é que não tenhamos grandes vozes negras. Contamos com a fibra de sambistas da pesada, como Clementina de Jesus, Dona Ivone Lara, Alcione, Leci Brandão, Jovelina Pérola Negra, Teresa Cristina. Nossas cantantes negras parecem tender mais ao samba (e, eventualmente, ao soul e ao funk, caso de Sandra de Sá) que, digamos, ao jazz, à bossa nova ou à dita MPB.

São coisas da vida, cantaria a ruiva Rita Lee, e este não é assunto que instigue maiores interrogações, debates ou estudos acadêmicos. Ou melhor, não era. Produto de uma dissertação de mestrado do jovem jornalista e historiador Ricardo Santhiago, de 26 anos, o livro Solistas Dissonantes – História (oral) de cantoras negras (Letra e Voz, 294 págs., R$ 40) mexe com sutileza no vespeiro oculto atrás das tais “coisas da vida”. E chega a conclusões tão cristalinas quanto desconcertantes, sobre os porquês da ausência de cantoras negras na MPB, na bossa, no jazz, nos gêneros de maior empatia junto ao público das classes médias para cima.

A primeira e mais direta das constatações é de que essas cantoras existem, sim, sinhô. Santhiago vale-se da metodologia da história oral para registrar os depoimentos em primeira pessoa de treze brasileiras negras que, ao longo de compridas trajetórias profissionais, não quiseram e/ou não souberam traçar caminhos musicais calcados nas qualidades e nos estereótipos de samba, batucada ou pagode.

Algumas delas gozam ou gozaram de certa popularidade e reconhecimento, como Alaíde Costa, Eliana Pittman, Rosa Marya Colin e Zezé Motta. Mas a maioria tem presença restrita e marginal nos meios de comunicação. Não se pode dizer que sejam amplamente conhecidos do público nacional os nomes de Adyel Silva, Arícia Mess, Áurea Martins, Graça Cunha, Ivete Souza, Izzy Gordon, Leila Maria, Misty e Virgínia Rosa.

Juntas, as treze formam um mostruário que está longe de ser completo. Elas próprias evocam, em suas falas, colegas ausentes que caberiam perfeitamente no escopo do livro: Ângela Maria, Elizeth Cardoso, Carmen Costa, Elza Soares, Leny Andrade, Tânia Maria, Rosa Passos, Daúde, Leilah Moreno, Jaqueline Ribas. Ah, e também uma pioneira entre as compositoras brasileiras, que surge no depoimento de sua sobrinha, Izzy Gordon: “Dolores Duran também era negra”.

Mesmo incompleta a seleção, a leitura acumulada dos depoimentos deslinda aos poucos uniformidades surpreendentes. É quase unânime, por exemplo, o relato sobre a resistência de gravadoras, produtores e músicos diante da não identificação das artistas com o samba.

Leila Maria conta do convite feito por um músico “muito conhecido”, para um trabalho conjunto: “Eu disse que queria cantar jazz, Tom Jobim… Na mesma hora ele disse que eu tinha outro perfil, que devia cantar sambas e que essas não eram músicas que traduzissem o sentimento ‘do negro’. Encerrei o encontro ali e nunca mais voltei”.

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